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Paris - Parte XI - Montmartre - Região de Île-de-France - França -2012

  • 6 de jun.
  • 17 min de leitura

Basilique du Sacré-Cœur de Montmartre vista da Place Saint-Pierre, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.



Paris - Parte XI


Continuando nosso passeio, fomos conhecer o famoso distrito de Montmartre.


Montmartre e a arte são inseparáveis; por volta do fim do século XIX, o distrito era o lugar de reunião de pintores, escritores, poetas e seus discípulos, que se encontravam nos bordéis, cabarés e outros lugares de diversões que fizeram a reputação de depravação deste distrito; a maior parte desses artistas e homens de letras, migrando inicialmente para Saint-Germain-des-Prés, deixou Montmartre há muito tempo, cuja vida noturna, ainda exuberante, já não tem o charme de outrora.


A colina, no entanto, conserva notavelmente intacto o encanto de sua atmosfera de aldeia; os turistas geralmente se reúnem na Place du Tertre, onde prosperam retratistas e vendedores de suvenires; há, também, outros locais, como ruas sinuosas, praças encantadoras, pequenos terraços e escadarias intermináveis que, muitas vezes, ​​oferecem vistas espetaculares da capital, particularmente a partir do pátio da Sacré-Cœur.


Começamos nossa visita exatamente por ela, a Basilique du Sacré-Cœur de Montmartre, conhecida singelamente como Sacré-Cœur.


Após a derrota militar da França para a Prússia, um empresário católico, Alexandre Legentil, formulou, em 8 de dezembro de 1870, um "Voto Nacional", consistente na construção de uma igreja em Paris dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, a fim de confiar a França ao Coração de Jesus como um sinal de penitência, confiança, esperança e fé, tendo recebido apoio ao projeto de seu cunhado, o pintor Hubert Rohault de Fleury.


Em 1872, o cardeal Guibert, arcebispo de Paris, aprovou o voto e a escolha de Montmartre como local para a construção da igreja, cuja primeira pedra foi colocada em 1875, com base no projeto do arquiteto Paul Abadie, que deu à basílica seu estilo romano-bizantino e sua forma de cruz grega com um eixo norte-sul, para que ela se abrisse para Paris.


Em 1891, a Basílica do Sagrado Coração de Jesus, que ainda não possuía a grande cúpula, foi solenemente inaugurada pelo cardeal Richard, arcebispo de Paris.


Em 1895, um sino de 19 toneladas, fundido pela Fundição Paccard em 1891 em Annecy, foi doado à Basílica do Sagrado Coração pela Casa de Saboia (da mesma família do Reino da Itália), sendo batizado, por isso, de "Savoyarde".


Em 1912, o grandioso campanário é concluído, com a instalação da cruz de sua lanterna.


Em 1914, a fachada é finalmente acabada.


A Basílica do Sagrado Coração é consagrada em 16 de outubro de 1919, após 40 anos do lançamento da primeira pedra.




Basilique du Sacré-Cœur de Montmartre, erguida de 1875 a 1914, com base no projeto do arquiteto Paul Abadie, em estilo romano-bizantino e forma de cruz grega, vista a partir da Square Louise-Michel, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


A Sacré-Cœur fica num alto e para acessá-la a pé, o visitante tem que subir uma grande escadaria que inicia na Place Saint-Pierre, tendo no intervalo dos lanços, uma praça intermediária, a Square Louise-Michel, inaugurada em 1927 e batizada, em 2004, em homenagem a Louise Michel (1830-1905), uma das figuras mais importantes da Comuna de Paris de 1871, em substituição ao pintor e desenhista Adolphe Willette, seu nome anterior, caído em desgraça por seu suposto antissemitismo.


Em 1932, na parede do terraço superior da praça, instalou-se uma fonte monumental, idealizada pelo escultor Paul Gasq.




Fonte monumental de Paul Gasq, em estilo neoclássico, inaugurada em 1932; sob o terraço superior da praça, três nichos semicirculares com tetos abobadados abrigam bicos que despejam água em bacias adornadas, nos seus pedestais, com figuras representando deuses marinhos, que transbordam para um grande tanque. Square Louise-Michel, antiga Willette, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




Fachada principal da Sacré-Coeur a partir da rue cardinal Dubois; no nicho central, bem no alto, a estátua de Jesus Cristo, que abençoa a cidade com uma das mãos e, com a outra, mostra o seu coração, ou seja, a estátua do Sagrado Coração de Jesus, instalada em 1927, obra do escultor Pierre Seguin; nas laterais da grande imagem, baixos-relevos representando, à esquerda, a galinha cobrindo seus pintinhos com as asas, símbolo da bondade de Deus, e, à direita, o pelicano, alimentando seus filhotes bebendo do próprio peito, símbolo de Jesus Cristo que, no Sacramento da Eucaristia, oferece seu Corpo e Sangue como alimento; sobre as pilastras laterais do pórtico, veem-se duas estátuas equestres de bronze que representam São Luís, empunhando a espada com ponta para baixo, à esquerda, e Santa Joana d'Arc, com a espada com a ponta para cima, à direita, ambas de autoria do escultor Hippolyte Lefèbvre. Rue du Chevalier de la Barre, 35, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


A cripta da basílica contém túmulos ligados a figuras importantes que deixaram sua marca neste lugar sagrado, como os cardeais Joseph Hippolyte Guibert e François Richard de La Vergne.




Estátua do cardeal Guibert na cripta da Basilique du Sacré-Cœur de Montmartre, o arcebispo de Paris que incentivou a construção da basílica; obra atribuída ao escultor Louis Félix Noël; o cardeal é representado ajoelhado, coberto por seu manto esvoaçante, e com seu báculo pousado no seu lado direito, segurando nas mãos a Basílica do Sagrado Coração. Rue du Chevalier de la Barre, 35, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Subimos ao belo Domo da Sacré-Coeur, de onde pudemos ter belas vistas do distrito de Montmartre e outros lugares de Paris.




O distrito de Montmartre e, bem à direita, o Chateau d'Eau de Montmartre (torre ou caixa d'água), erguido em 1927, no estilo neobizantino, a partir do Domo da Sacré-Coeur. Rue du Chevalier de la Barre, 35, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




Estátua em bronze do Arcanjo São Miguel, o anjo da guarda da Igreja e da França, matando o Dragão (no formato de um crocodilo?), obra do escultor François Sicard de 1908 (o mesmo da Convenção Nacional do Panteão); São Miguel, após matar o Mal com sua espada, que permanece cravada no corpo da Besta, faz um gesto de apaziguamento com a mão direita e, com a esquerda, ergue o estandarte sagrado, que tremula acima de sua cabeça. Telhado do lado norte da Basilique du Sacré-Coeur de Montmartre, Rue du Chevalier de la Barre, 35, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Do Domo avistamos, também, o Parc Marcel-Bleustein-Blanchet, instalado em 1983; o lugar se chamava, anteriormente, Parc de la Turlure, tendo recebido esse nome em referência ao moinho Turlure, que existira no local entre 1770 e 1820; mas em 2004 foi batizado com novo nome para homenagear Marcel Bleustein-Blanchet, publicitário que participou da Resistência francesa, oposição às forças alemãs que ocuparam o território francês durante a Segunda Grande Guerra.




Parc Marcel-Bleustein-Blanchet visto a partir do Dôme du Sacré-Cœur, Rue du Chevalier de la Barre, 35, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




Parc Marcel-Bleustein-Blanchet, instalado em 1983, conhecido antes de 2004 como Parc de la Turlure, visto a partir do Dôme du Sacré-Cœur, Rue du Chevalier de la Barre, 35, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Descemos do Domo da Sacré-Cœur e nos dirigimos à Place du Tertre, tendo, no caminho, encontrado a Église Saint-Pierre-de-Montmartre.


Iniciada em 1133, a Église Saint-Pierre, no estilo românico, uma das mais antigas de Paris, foi concluída em 1147, consagrada pelo Papa Eugênio III, um cisterciense, auxiliado por São Bernardo de Claraval e por Pedro, o Venerável, abade de Cluny, na presença do rei Luís VII, o Jovem, e de sua mãe, a rainha Adelaide de Saboia; por mais de seis séculos, serviu como igreja paroquial e igreja das religiosas da Abadia Real Beneditina de Montmartre; a abadia teve sua história interrompida brutalmente em 1794, durante a Revolução Francesa: a última abadessa foi guilhotinada, as outras freiras foram expulsas; a abadia e a estátua original da Virgem Maria foram destruídas, restando apenas a igreja.




Porta principal de bronze consagrada a São Pedro; obra do escultor italiano Tommaso Gismondi, possivelmente trabalhada de 1975 a 1980, ano em que foi instalada na igreja e abençoada pelo Santo Papa João Paulo II; as folhas da porta, que representam vários episódios da vida de São Pedro, devem ser lidas como um vitral, da esquerda para direita e de baixo para cima; a última folha à direita, mostra São Pedro sendo crucificado de cabeça para baixo em Roma. Église Saint-Pierre-de-Montmartre, uma das mais antigas da cidade, iniciada em 1133, Rue du Mont-Cenis, 2, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


A cerca de 50 metros da igreja, fica a Place de Tertre.


A praça foi criada sobre um terreno doado em 1635 pelas religiosas da Abadia de Montmartre, quando o lugar era apenas um povoado; ela foi o centro da Comuna de Montmartre, criada em 1790, durante a Revolução Francesa, até a anexação desta à cidade de Paris em 1860.


É o ponto mais elevado de Paris; no século XIX, já havia pintores que expunham seus trabalhos aqui; hoje, animada e vibrante, é famosa por seus inúmeros caricaturistas e pintores, e os turistas do mundo todo se juntam à diversão, posando para os artistas de Montmartre; a praça também é rodeada pelos terraços dos diversos cafés e restaurantes, sendo que um deles é o bistrô La Mère Catherine, localizado no número 6 desde 1793.




Place du Tertre, hoje povoada de caricaturistas e pintores, cujos predecessores expunham aqui desde XIX. Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Como já falado, na praça se encontra o Restaurant La Mère Catherine.


Antes da existência do estabelecimento, o lugar servia de presbitério para o padre da Église de Saint-Pierre-de-Montmartre, datado do século XV, tendo acolhido Danton e seus discípulos durante a Revolução Francesa.


Em 1793, Catherine Lemoine fundou o restaurante; em 30 de março de 1814, o local foi testemunha da Batalha de Paris, que marcou o fim da Campanha Francesa e a queda do Império Napoleônico; durante os conflitos, os cossacos iam a Montmartre para escapar da autoridade dos oficiais e tomar um copo de bebida alcoólica "à la Mère Catherine" (à Mãe Catarina); eles pediam suas bebidas gritando "Bistro!" (rápido, em russo), uma expressão que teria dado origem à palavra moderna "bistrô".




Restaurant La Mère Catherine, fundado em 1793; os cossacos que combatiam as tropas napoleônicas em 1814, nas proximidades de Paris, vinham a Montmartre para escapar da autoridade de seus oficiais e tomar um drinque "à la Mère Catherine". Place du Tertre, 6, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Mais ao norte, na Rue Cortot, fomos visitar o Musée de Montmartre.


Criado em 1960 em um dos edifícios mais antigos da colina, a Maison du Bel Air, construída no século XVII; rodeada por jardins, foi o local de criação de muitos artistas, particularmente impressionistas e pós-impressionistas do final do século XIX e início do século XX, como Auguste Renoir, Émile Bernard, Raoul Dufy, Charles Camoin, Suzanne Valadon e Maurice Utrillo.


As coleções permanentes do museu contam a história de Montmartre, a transformação de um lugar campestre em parte da capital: os artistas começaram a se instalar a partir de 1870; cafés e cabarés proliferaram na década de 1880; rapidamente, o lugar ficou famoso por sua efervescência e energia criativa.




Sede do Musée de Montmartre, instalado na Maison du Bel Air, palacete do século XVII, casa e atelier de grande número de pintores, dentre eles Auguste Renoir e Maurice Utrillo. Rue Cortot, 12, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




Reconstituição do Café de l'Abreuvoir, também conhecido como "La Maison Rose ", o bistrô preferido do pintor pós-impressionista Maurice Utrillo, que, inclusive, fez uma pintura sobre ele. Musée de Montmartre, Rue Cortot, 12, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


No jardim do museu, vê-se um balanço que lembra o que aparece na pintura "La Balançoire", realizada pelo famoso impressionista Auguste Renoir em 1876, neste lugar.




O balanço que faz referência à pintura "La Balançoire", realizada pelo famoso impressionista Auguste Renoir em 1876, neste lugar; ao fundo, à esquerda, o Chateau d'eau de Montmartre. Jardins Renoir, Musée de Montmartre, Rue Cortot, 12, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




"La Balançoire", de Auguste Renoir, de 1876, atualmente propriedade do Musée d'Orsay; os modelos são Edmond, irmão de Auguste Renoir, o pintor Norbert Goeneutte e Jeanne Samary, uma jovem de Montmartre. Par Auguste Renoir — Travail personnel, CC0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=30518325


Caminhamos mais para o norte e nos deparamos, na esquina da Rue Saint Vincent com a Rue des Saules, com o Cabaret Au Lapin Agile.


O local já existia por volta de 1860, funcionando numa casa erguida no final do século XVIII, sendo conhecido como Cabaret des Assassins (Cabaré dos Assassinos), mas, em 1879, o pintor e caricaturista André Gill pintou uma placa representando um coelho saltando de uma panela, o "Lapin à Gill" (Coelho de Gill), que evoluiu para "Lapin Agile" (coelho ágil), nome pelo qual passou a ser denominado.


O então gerente do lugar, Frédéric Gérard, apelidado de Père Frédé, por volta de 1900, deu um impulso artístico decisivo ao cabaré, conseguindo reunir escritores, poetas, músicos, atores, escultores, vários deles ainda desconhecidos, que se misturavam, criticavam-se, zombavam uns dos outros e também se ajudavam, como Picasso, Utrillo, Derain, Braque, Modigliani, Guillaume Apollinaire, o que tornou o cabaré, depois, muito famoso.


Por essa época, iniciou-se a demolição das casas antigas em Montmartre, como a do compositor Hector Berlioz, para erguer prédios de apartamentos; o cantor e empresário Aristide Bruant comprou o Lapin Agile em 1913 para impedir sua demolição e o vendeu em 1922 (ou 1923), em condições mais amigáveis, a Paulo, filho de Frédé.


Hoje, o cabaré mantém sua estrutura praticamente intacta, transmitindo a imagem de uma tradição francesa e parisiense apreciada pelo mundo inteiro.



Fachada principal do Cabaret Au Lapin Agile, que funciona neste local pelo menos desde 1860; vê-se, no primeiro andar, a reprodução da pintura feita pelo caricaturista André Gill, em 1879, representando um coelho saltando de uma caçarola, que terminou por dar nome ao cabaré, o Coelho Ágil. Rue des Saules, 22, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




Au Lapin Agile, instalado numa imóvel erguido por volta do final do século XVIII, chamava-se, inicialmente, Cabaré dos Assassinos; no início do século XX, passou a ser lugar de encontro de artistas, alguns deles se tornariam muito famosos no futuro. Rue des Saules, 22, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Caminhando para o leste, nos deparamos com os dois últimos exemplares de moinhos de vento de Montmartre.


Por ser um lugar alto e, na época (século XVI a XIX), relativamente descampado, com ventos mais fortes e mais constantes do que nas planícies próximas ao rio Sena, Montmartre possuía cerca de 30 moinhos de vento, empregados para moer grãos e prensar uvas, que outrora pontuavam a paisagem do atual distrito; hoje, subsistem somente dois; o Moulin Radet, no n. 83, da Rue Lepic, construído possivelmente em 1717, que abriga hoje um restaurante denominado "Moulin de la Galette", e, mais longe, na mesma rua, o verdadeiro Moulin de la Galette, edificado em 1622, igualmente conhecido como Blute-Fin.


A história da manutenção desses dois moinhos de vento iniciou-se em 1812, quando o moleiro Nicolas-Charles Debray, proprietário do Moulin Blute-Fin (conhecido como verdadeiro Moulin de la Galette) e de sua fazenda, comprou o Moulin Radet, erguido numa propriedade vizinha; durante alguns anos, o Blute-Fin continuou a abastecer Paris com farinha, enquanto o Radet, localizado mais distante, moía sementes para a indústria de perfumes; Debray decidiu unir os dois moinhos e aproximou o Radet do Blute-Fin, inaugurando um café no piso inferior que tornaria este lugar famoso.


Assim, entre os dois antigos moinhos de vento, em 1834, foi construído um lugar de entretenimento, consistente num espaço em que as pessoas podiam desfrutar de uma "galette", uma espécie de pão de centeio, produzido ali, acompanhado de leite; depois, o leite foi substituído por vinho.


Na década de 1870, o filho do moleiro, Pierre-Auguste Debray, tornou-se proprietário do lugar, passando a denominar-se salão de baile ao ar livre Moulin de la Galette, que oferecia um baile todos os domingos à tarde até a meia-noite, onde também eram servidas alimentação e bebidas.


O acesso era feito pela Rue Lepic, que dava para um primeiro pátio e, em seguida, para o salão de baile (um grande galpão de madeira reconstruído em 1873), que se abria para um segundo pátio adornado com acácias, bancos e jogos; uma pequena orquestra tocava num palco; por 10 centavos, uma escadaria levava ao Moulin Blute-Fin (o agora conhecido como Moulin de la Galette), de onde se tinha uma vista panorâmica de Paris e seus arredores.


O espaço ao redor do Moulin Radet se transformou num restaurante, na década de 1980, chamado Moulin de la Galette, passando de um popular café ao ar livre a um restaurante frequentado por celebridades; já o verdadeiro Moulin de la Galette, também chamado Blute-Fin, é hoje propriedade privada, não sendo permitido acesso ao público.




O Moulin du Radet, de 1717, transferido para esse lugar na primeira metade do século XIX; aqui era a entrada do antigo café e salão de baile Moulin de la Galette; atualmente abriga o "Restaurant Moulin de la Galette". Rue Lepic, 83, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




Entrada do extinto Café e Salão de Baile Moulin de la Galette; fotografia provavelmente do final do século XIX, atribuída a Henri Émile Cimarosa Godefroy. © CC0 Paris Musées / Musée Carnavalet Histoire de Paris. https://www.musee-orsay.fr/fr/magazine/2026-03-30/il-y-150-ans-auguste-renoir-peignait-le-bal-du-moulin-de-la-galette.




O verdadeiro Moulin de la Galette, de 1622, também conhecido como Blute-Fin, cuja pequena parte pode ser vista entre as árvores, um dos dois moinhos de vento que subsistiram no distrito de Montmartre. Rue Lepic, 77, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




"Bal du moulin de la Galette", de Auguste Renoir, de 1876, atualmente propriedade do Musée d'Orsay; cena vibrante da vida parisiense que se tornou um dos ícones do Impressionismo. Par Auguste Renoir — Google Art & Culture, Domaine public, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=182805794


Na descida da colina, nos deparamos com a icônica entrada estilo Art Nouveau da estação de metrô Abbesses (Abadessas).


A estação de metrô Abbesses, a mais profunda de Paris, a 30 metros abaixo da superfície, foi inaugurada em outubro de 1912 na linha A (atual linha 12) da rede Nord-Sud; enquanto a Compagnie du métropolitain de Paris (CMP) operava quase toda a rede de metrô, a empresa rival da Nord-Sud surgiu construindo e operando as linhas A e B (atual trecho norte da linha 13).


A estação de metrô Abbesses recebeu seu nome da Place des Abbesses, sob a qual está localizada, nomeada em homenagem às 46 abadessas que lideraram a Abbaye des Dames de Montmartre (Abadia das Damas de Montmartre).


As freiras beneditinas de Saint-Pierre-de-Reims, cuja superiora era conhecida como abadessa, estabeleceram-se na abadia, fundada por ordem do rei Luís VI, o Gordo, e da sua esposa, a rainha Adelaide de Saboia, a partir do século XII; a abadia ficava no local da antiga igreja de Montmartre, depois substituída pela de Saint-Pierre, que havia pertencido aos monges de Saint-Martin-des-Champs, conforme já vimos acima, neste post.


No século XVII, foram realizadas importantes reformas; nessa época, foram estabelecidas duas abadias distintas: a abadia inferior e a abadia superior, sendo esta última gradualmente abandonada em favor da primeira, tendo uma parte sido vendida para a criação da Place de Tertre, como já exposto acima; a entrada principal da abadia inferior ficava localizada na esquina da atual Rue Yvonne-Le-Tac com a Rue des Abbesses; durante a Revolução Francesa, todos os edifícios da abadia inferior foram evacuados e vendidos como propriedade nacional, em 1792, e demolidos algum tempo depois.


Uma característica marcante da estação Abbesses é sua entrada coberta, em estilo Art Nouveau, projetada por Hector Guimard, dentre as cerca de 167 utilizadas pela Compagnie du métropolitain de Paris de 1900 a 1913, fundidas pela Fonderie d'art du Val d'Osne, e considerada uma das mais belas da rede ferroviária; inicialmente localizada em Hôtel-de-Ville, a entrada foi transferida para a estação Abbesses em 1974, criando uma contradição histórica, já que as estações da linha Nord-Sud possuem, na sua maioria, entradas de ferro forjado muito mais discretas do que as entradas projetadas por Guimard.




A icônica entrada estilo Art Nouveau, da estação de metrô Abbesses, criada no início do século XX pelo arquiteto Hector Guimard; inicialmente instalada na estação do Hôtel-de-Ville, foi transferida para cá em 1974; trata-se de uma estação da Linha 12 do Metrô de Paris, a mais profunda da cidade, com 30 metros abaixo da superfície. Place de Abbesses, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Em frente da praça, encontra-se a Église Saint-Jean-de-Montmartre, também conhecida como Église Saint-Jean l'Évangéliste.


No final do século XIX, o abade Sobaux, pároco da Saint-Pierre-de-Montmartre, observou que não havia nenhuma igreja na divisa entre Saint-Pierre-de-Montmartre e a Igreja da Santíssima Trindade; em razão da inclinação acentuada do distrito de Montmartre, o padre Sobaux desejava construir uma igreja a meio caminho da encosta, para que os moradores da antiga Comuna de Montmartre também pudessem se reunir ali; o local escolhido para sua construção foi nas proximidades da antiga entrada do Abadia que outrora ocupava Montmartre, tendo o pároco compartilhado seu plano com o cardeal Bichard, arcebispo de Paris.


A missão de construção da nova igreja foi confiada ao arquiteto Anatole de Baudot, que optou por empregar uma técnica construtiva revolucionária e econômica para a época: o sistema desenvolvido pelo engenheiro Paul Cottancin; esse sistema consistia numa malha metálica, cuja trama e urdidura eram formadas pelo mesmo fio de ferro, preenchida com cimento, formando uma espécie de concreto armado, e as paredes eram feitas de tijolos empilhados.


A construção começou em agosto de 1897, foi interrompida por uma série de embargos, tendo sido concluída em 1904 e consagrada como capela auxiliar (pertencente à paróquia de Saint-Pierre) em homenagem a São João Evangelista no mesmo ano, em 13 de junho; após 1905, torna-se uma paróquia independente.


Os três grandes vitrais da nave, criados pelo mestre vidreiro Jac-Galland a partir de desenhos de Pascal Blanchard, são em estilo Art Nouveau; as esculturas em bronze e terracota vidrada, no estilo 1900, de Pierre Roche, decoram o altar-mor.




Nave da Église Saint-Jean-de-Montmartre, também conhecida como Église Saint-Jean l'Évangéliste, construída entre 1897-1904, a primeira em concreto armado, com as paredes preenchidas por tijolos vermelhos; a igreja mescla estilos arquitetônicos, apresentando elmentos bizantinos, góticos e Art Nouveau, sendo apelidada de Notre-Dame-des-Briques (Nossa Senhora dos Tijolos). Rue des Abbesses, 21, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Depois, nos dirigimos para o oeste do distrito com vista a conhecer o cabaré mais famoso do mundo, o Moulin Rouge (Moinho Vermelho).


Na época da sua criação, vivia-se a Belle Époque, período de paz na Europa de 1871 a 1914; a burguesia achava charmoso se refugiar nas comunidades plebeias; a cultura popular era celebrada numa atmosfera alegre, exuberante e vibrante; nesse contexto propício à criação artística, círculos literários se formavam e se dissolviam a cada novo encontro, enquanto pintores e ilustradores eram particularmente inspirados por essa atmosfera alegre, às vezes extravagante, mas sempre fantasiosa, um contraste marcante com a rigidez do classicismo predominante; o "Japonismo", movimento de inspiração oriental que incorporava influências japonesas à arte francesa, estava em seu auge; o ilustrador, caricaturista e pintor francês Henri de Toulouse-Lautrec, com suas famosas gravuras japonesas, era seu discípulo mais brilhante; assim, estava montado o cenário para o surgimento dos primeiros cabarés, incluindo o Moulin Rouge em 1889.


Em 6 de outubro de 1889, aos pés de Montmartre, o clima era festivo: a inauguração de uma nova casa de espetáculos, o Moulin Rouge, um empreendimento de dois homens de negócios, o espanhol da Catalunha Josep Oller e o francês Charles Zidler, no Jardin de Paris; na sua inauguração, o edifício era inteiramente vermelho e coroado por um enorme moinho de vento, arquitetura imaginada pelo pintor, ilustrador e caricaturista francês Adolphe Willette, que fazia referência a esses equipamentos que, durante dois séculos, dominaram a paisagem do distrito; na Place Blanche, multidões acorreram para descobrir este local extravagante: uma gigantesca pista de dança, espelhos por toda parte, uma galeria onde se misturar com a "ralé" era o auge da elegância, um jardim adornado com um enorme elefante e passeios de burro para entreter as damas; prevalecia uma atmosfera selvagem, onde o espetáculo se desenrolava tanto no palco quanto na plateia: aristocratas e malandros de boné se misturavam em alegre camaradagem.


Os bailes do Moulin Rouge rapidamente se tornaram muito populares.; o ponto alto da noite: uma nova dança, o cancan, foi descoberta pelos parisienses com entusiasmo transbordante, apresentando suas dançarinas, as "Chahuteuses", e seus ritmos frenéticos, demonstrando grande elasticidade ao chutar a perna no ar, exibindo, dessa forma, suas peças íntimas: dentre as mais famosas, na época, estavam La Goulue, Jane Avril, apelidada de Jeanne la Folle (Jeanne Louca), a Môme Fromage (Garota do Queijo), nome dado em referência à sua pouca idade, Grille d’Égout (Grelha do Esgoto), conhecida por seu gosto por travessuras, Nini Pattes en l’Air (Nini Patas no Ar) e Cha-U-Kao.


Um dos artistas que ajudou a tornar famoso o cabaré foi exatamente Toulouse-Lautrec, que fez uma litografia colorida chamada “Moulin Rouge: La Goulue”, além de outros trabalhos representando momentos relativos ao lugar.




“Moulin Rouge: La Goulue”; litografia de 1891, de autoria de Toulouse-Lautrec, representando La Goule, uma das dançarinas mais famosas do baile, apresentando o cancan . https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Henri_de_Toulouse-Lautrec_-_Moulin_Rouge_-_Google_Art_Project.jpg



 

"La Danse au Moulin-Rouge", pintada por Toulouse-Lautrec em 1890. Par Henri de Toulouse-Lautrec — The Yorck Project (2002) 10.000 Meisterwerke der Malerei (DVD-ROM), distributed by DIRECTMEDIA Publishing GmbH. ISBN : 3936122202., Domaine public, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=159594


Mas, no início do século XX, o baile do Moulin Rouge entrou em decadência e a casa se transformou, em 1903, em um teatro-concerto sob a direção de seu novo diretor, Paul-Louis Flers, passando a apresentar operetas.


O edifício que vemos hoje não é a estrutura original; em fevereiro de 1915, ocorreu um grande incêndio no prédio; auditório e salão de baile foram completamente destruídos; apenas a fachada e parte do palco sobreviveram às chamas; o cabaré foi obrigado a fechar por vários anos e só foi reconstruído em 1921.


Atualmente, é conhecido por seus espetáculos que combinam dança, acrobacias, espetáculos circenses e figurinos de penas, joias e lantejoulas, com opção de jantar.




Fachada do Moulin Rouge, cabaré inaugurado em 1889, associado ao cancan e imortalizado pelos desenhos de Toulouse-Lautrec. Boulevard de Clichy, 82, Montmartre, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


No nosso próximo post, vamos conhecer os quartiers des Halles e du Marais.



Fontes:


Wikipedia


"Paris: tous les plus beaux monuments", Guides Voir, Hachette Tourisme, Paris, 2010.












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