top of page

Paris - Parte X - Quartier de l'Opéra e Quartier des Tuileries - Região de Île-de-France - França - 2012

  • há 1 dia
  • 20 min de leitura

Hôtel du Louvre, um hotel de luxo (5 estrelas), erguido em 1855 no estilo Segundo Império ou haussmanniano, com base no projeto dos arquitetos Jacques Hittorff, Charles Rohault de Fleury, Auguste Pellechet e Alfred Armand. Place Andre Malraux, Quartier des Tuileries, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.



Paris - Parte X


O Quartier de l'Opéra tem este nome em razão de o distrito abrigar o belo edifício da Opéra National de Paris, também conhecida como Opéra-Garnier.


Em 14 de janeiro de 1858, o patriota italiano Felice Orsini tentou assassinar o imperador Napoleão III, enquanto ele se encontrava na então sede da ópera, situada ainda na Rue Le-Peletier; por conta disso, o soberano decidiu pela criação de uma sala de espetáculos que ele pudesse frequentar sem o risco de sofrer outro atentado; o projeto do novo prédio ficou a cargo do arquiteto Charles Garnier, enquanto o barão Haussmann criou a praça defronte, permitindo a integral exibição da sua fachada principal, bem como a ampla avenida que passou a ligá-lo ao Louvre.


O palácio Garnier domina hoje um dos cruzamentos mais animados de Paris; bancos, agências de viagens e grandes lojas se instalaram no distrito, nos bulevares renovados no Segundo Império; as ruas que os cruzam, por sua vez, conservam seu charme mais antigo; numerosas passagens (galerias), precursoras das galerias comerciais modernas, desembocam nessas vias; explorá-las oferecem um maravilhoso passeio.


Uma curiosidade do lugar; no Bulevard des Capucines, exatamente ao lado do célebre Café de la Paix, na altura do n. 14, ocorreu, em 28 de dezembro de 1895, a primeira projeção cinematográfica pública realizada pelos irmãos Lumière.


Numa dessas passagens do distrito, encontramos a Square de l'Opéra-Louis-Jouvet (praça, incialmente Square de l'Opéra), tendo ao centro uma impressionante escultura denominada "Le poète chevauchant Pégase" (O poeta cavalgando Pégaso), de autoria de Alexandre Falguière.


No final do século XIX, o banco Crédit Foncier adquiriu o terreno e demoliu os restos do colossal Eden Théâtre para dar lugar a prédios de apartamentos que hoje formam a Square de l'Opéra-Louis Jouvet, criada em 1896 no local onde ficava o Eden ou Grand Théâtre; o lugar foi concebido para ser o ponto de encontro da alta sociedade parisiense; o recém-inaugurado Athénée Théâtre Louis-Jouvet atraía um público burguês, e os térreos dos prédios eram ocupados por boutiques de luxo.




A bela escultura em bronze "Le poète chevauchant Pégase" (O poeta cavalgando Pégaso) realizada por Alexandre Falguière, instalada em 1897 no centro da circular Square de l'Opéra-Louis-Jouvet, inaugurada em 1896. Quartier de l'Opéra, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Assim, o atual Athénée Théâtre substituiu o imenso Eden Théâtre, à sua maneira, menor e mais intimista; o seu auditório, inclusive, foi criado em 1893 em um dos foyers do Eden, abrindo ao público naquele mesmo ano com o nome de Comédie Parisienne.


Mas a inauguração oficial do teatro como Athénée Théâtre ocorreu em 1896, ano inscrito em seu frontão; foi também em 1896 que o edifício passou por sua última grande transformação: a mudança da fachada da Rue Boudreau para a Square de l'Opéra, que se tornou, em certo sentido, a entrada original do teatro.


O nome de Louis Jouvet, diretor do teatro de 1934 até sua morte, em 1951, foi incorporado oficialmente ao nome da casa de espetáculo, passando a denominar-se Athénée Théâtre Louis-Jouvet.


Classificado como monumento histórico e renomado por sua acústica excepcional, o Athénée Théâtre Louis-Jouvet está entre as mais belas salas à italiana de Paris.




Entrada do Athénée Théâtre Louis-Jouvet, inaugurado em 1896, projeto do arquiteto Paul-Casimir Fouquiau, em estilo Art Nouveau. Square de l'Opéra-Louis-Jouvet, 4, Quartier de l'Opéra, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Seguindo ao sul da praça, atravessamos um túnel sob um prédio e ingressamos, logo em seguida, na Place Édouard-VII e sua continuação (passagem), a Rue Édouard-VII.


A Rue Édouard-VII foi criada entre 1911 e 1913 por iniciativa do incorporador imobiliário Arthur Millon e seu sócio Henry Wiener; originalmente, o complexo era composto por edifícios com lojas no térreo e escritórios nos andares superiores, um hotel e o Théâtre Édouard-VII.


A rua leva à Place Édouard-VII, inaugurada em 1912, projeto do arquiteto Henri-Paul Nénot; no centro da praça encontra-se uma estátua equestre do rei do Reino Unido, Eduardo VII (1901-1910), filho da rainha Vitória; é obra de Paul Landowski (escultor francês de origem polonesa, também autor da estátua do Cristo Redentor, do Rio de Janeiro) e foi inaugurada em janeiro de 1914, poucos meses antes do início da Primeira Guerra Mundial.


A escolha de Eduardo VII é bastante significativa; durante seu reinado, Eduardo VII foi o arquiteto da Entente Cordiale entre a França e o Reino Unido, que tornaria os dois países aliados contra o eixo Alemanha-Áustria, no primeiro grande conflito mundial.




Estátua de Eduardo VII, rei do Reino Unido, inaugurada em 1914, obra em bronze do escultor Paul Landowski; na grande tradição da estátua equestre, o escultor retratou o rei britânico em seu papel de chefe do exército, guiando seu cavalo com serenidade; ele veste o uniforme de marechal que condiz com sua patente: capacete com pluma, casaco, jaqueta provavelmente vermelha com lenço e condecorações, calças provavelmente brancas e botas de montaria. Place Édouard-VII, 14, Quartier de l'Opéra, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Na sequência, fomos conhecer a Église Sainte-Marie-Madeleine, La Madeleine.


Impressionante templo greco, visto a partir da Place de la Concorde, a igreja é um dos monumentos mais célebres de Paris; não parece em nada com o edifício previsto quando se colocou a primeira pedra em 1763 ou 1764: sua construção, iniciada por Pierre Contant d'Ivry e depois continuada por Guillaume Couture, que modificou os planos pela primeira vez, foi interrompida por um longo período durante a Revolução Francesa; somente com a assunção de Napoleão, este confiou, em 1806, ao arquiteto neoclássico Pierre-Alexandre Vignon a tarefa de transformar o edifício inacabado em um Templo da Glória às forças armadas francesas, e essa escolha determinou a aparência final do santuário, cercado por colunas coríntias de 20 metros de altura; o arquiteto Jean-Jacques-Marie Huvé passou a ser responsável pelos trabalhos após a morte de Vignon, em 1828; apesar do esforço, a igreja só foi concluída em 1845, bem depois que o imperador fora defenestrado do poder.


Suas maciças portas de bronze esculpidas abrem para um interior suntuoso de uma grande homogeneidade decorativa.


Ao que tudo indica, Santa Maria Madalena começou a seguir a Cristo depois de ser curada por Ele de uma possessão demoníaca; a partir de então, ela passou a fazer parte do grupo de mulheres que serviam ao Mestre e aos apóstolos; ela está presente no Calvário, aos pés da cruz, com Maria, a mãe de Jesus, e o discípulo João; também é encontrada no túmulo durante o sepultamento, ungindo o corpo de Jesus com especiarias; finalmente, na manhã de Páscoa, ao ir ao túmulo, ela viu a pedra removida e um anjo lhe disse: “Não tenha medo. Você está procurando Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui; ressuscitou, como havia dito”; ela foi, portanto, a primeira a receber a revelação de Cristo ressuscitado.




Fachada principal da Église Sainte-Marie-Madeleine, estilo neoclássico, projeto de Pierre-Alexandre Vignon completado por Jean-Jacques-Marie Huvé, de 1806-1845, inspirada nos templos gregos, rodeada de colunas coríntias de 20 metros; frontão esculpido por Henri Lemaire, alto-relevo acabado em 1833: no Juízo Final, Cristo aparece ladeado por dois anjos: à nossa direita, o arcanjo São Miguel expulsa os condenados, personificados pelos Vícios; do outro lado, as Virtudes conduzem os eleitos; uma característica singular da composição é que Maria Madalena está ajoelhada à direita, junto aos condenados; ela expressa, assim, o arrependimento, tema constante no programa iconográfico. Place de la Madeleine, 1, Quartier de l'Opéra, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Vignon planejava destacar o pórtico em contraste com as paredes nuas, mas seu sucessor, Huvé, preferiu esculpir uma série de nichos nas paredes externas, instalando neles uma impressionante galeria de estátuas de santos.


Na fachada oeste, encontra-se a estátua de Santa Margarida da Escócia; foi esposa do rei Malcolm III da Escócia (1058-1093) e com ele teve oito filhos que foram criados na fé católica, vivendo como uma família sagrada; exerceu forte influência sobre seu marido e reinado, promovendo as artes, a educação e a religião, sempre orando, trabalhando incansavelmente para ajudar os pobres, construindo igrejas e promovendo reformas religiosas; foi canonizada pelo Papa Inocêncio IV em 1250.




Estátua de Sainte Marguerite d'Écosse (Santa Margarida da Escócia), num dos nichos da fachada oeste de La Madeleine, obra do escultor François Augustin Caumois, primeira metade do século XIX. Église Sainte-Marie-Madeleine, Place de la Madeleine, 1, Quartier de l'Opéra, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.



A nave de La Madeleine, vista da entrada; a concepção interior de igreja é notavelmente homogênea: a nave única evoca os espaços interiores de edifícios antigos; o interior não replica exatamente a arquitetura de um templo, mas sim os volumes das termas romanas; os três vãos quadrados da nave são cobertos por cúpulas baixas com caixotões, que proporcionam uma tênue luz zenital, como no Panteão de Roma; a policromia dos mármores e o douramento a tornam particularmente suntuosa. Église Sainte-Marie-Madeleine, Place de la Madeleine, 1, Quartier de l'Opéra, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




No altar, o conjunto escultórico "Ravissement de Sainte Marie-Madeleine" (Arrebatamento de Santa Maria Madalena), de autoria Charles Marochetti, concluído em 1843; obra monumental composta por duas partes: o altar, decorado com motivos ornamentais e emoldurado por duas figuras angelicais, ajoelhadas, uma com as mãos cruzadas sobre o peito e a outra, com as mãos juntas; e o grupo esculpido acima, representando o Êxtase de Santa Maria Madalena - no final de sua vida, tendo se retirado para a gruta de Sainte-Baume, na Provença, Maria Madalena foi arrebatada em êxtase; durante esse episódio místico, ela foi levada ao Céu por anjos -; vestida com seu hábito, ela, ajoelhada, é aqui carregada em uma espécie de cesto trançado por três anjos; a escultura se desdobra no espaço de maneira altamente complexa, com múltiplos planos e uma interação excepcional de figuras que se cruzam, e de cavidades e vazios; o ritmo giratório dos anjos e o movimento ascendente da santa se entrelaçam graciosamente em uma composição de rara virtuosidade. Église Sainte-Marie-Madeleine, Place de la Madeleine, 1, Quartier de l'Opéra, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




Conjunto escultórico "O batismo de Cristo", instalado por trás da pia batismal; uma das obras-primas do escultor François Rude, mais conhecido por "A Partida dos Voluntários", no Arco do Triunfo; encomendado em 1835, o grupo foi instalado em 1843; o agrupamento das figuras é inspirado no Renascimento italiano, mais especificamente em Andrea Sansovino, em uma das portas do Batistério de Florença; mantendo a tradição, Rude representou um anjo ajoelhado, equilibrando o peso de São João, e dando continuidade à rica iconografia angelical de Maria Madalena. Église Sainte-Marie-Madeleine, Place de la Madeleine, 1, Quartier de l'Opéra, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


No interior, também foram instaladas estátuas de santos e santas; uma delas é a que representa Santa Amélia.


Lembrada como uma das muitas mártires cristãs da época das perseguições romanas, Santa Amélia teria vivido no século IV e falecido na cidade de Girona, na atual região da Catalunha, Espanha, mas de sua vida pouco se sabe.




Estátua de Sainte Amélie (Santa Amélia), de autoria de Théophile-François Bra, primeira metade do século XIX, em homenagem a Maria Amélia de Bourbon-Sicília, então rainha dos Franceses, esposa do rei Luís Filipe; com poucos documentos disponíveis sobre essa hipotética rainha da era visigótica, supostamente martirizada em Girona, o escultor a representou com um livro na mão, sinal de sua piedade. Église Sainte-Marie-Madeleine, Place de la Madeleine, 1, Quartier de l'Opéra, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Continuando nosso passeio pelo Quartier de l'Opéra nos deparamos com o famoso Harry's New York Bar.


O ex-jóquei norte-americano Toad Sloan decidiu desmontar um bar de mogno, localizado na 7º Avenida, em Nova Iorque, nos EUA, e instalá-lo na Rue Daunou, em Paris, inaugurando-o em 26 de novembro de 1911, com o nome New York Bar; o estabelecimento trazia uma novidade, os coquetéis.


O proprietário, em seguida, contratou o mais renomado bartender da época, o escocês Harry MacElhone, que mais tarde, em 1923, assumiria o comando do negócio e o transformaria no Harry's Bar.


Exatamente nessa época - os loucos anos vinte - muitos artistas norte-americanos foram morar ou fazer turismo em Paris e passaram a frequentar o bar, dentre eles, os escritores F. Scott Fitzgerald, autor dos romances "O grande Gatsby" e "O último magnata", e Ernest Hemingway, autor dos romances "Por quem os sinos dobram", "O Sol também se levanta" e "O velho e o mar".


O bar é conhecido como criador de coquetéis clássicos de primeira linha, como o Bloody Mary, o Sidecar, o Blue Lagoon e o White Lady.




Harry's New York Bar, inaugurado em 1911, favorito dos norte-americanos, dentre eles os escritores F. Scott Fitzgerald e Hemingway. Rue Daunou, 5, Quartier de l'Opéra, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Em direção ao rio Sena, na sequência, temos o Quartier des Tuileries.


Praças elegantes, jardins à francesa e ruas ladeadas de arcadas dão o caráter particular desse distrito; grandes museus convivem lado a lado com joalherias, hotéis suntuosos, lojas de antiguidades e casas de alta costura; lá estão o Louvre, o Jardim das Tulherias, a Place de la Concorde, já vistos em post anterior, e os edifícios da Place du Palais-Royal, o antigo Palais-Cardinal construído por Richelieu, que abriga hoje o Ministère de la Culture, a Comédie-Française e o Conseil d'État, a Place Vandôme, a Église Saint-Roch e o mítico Normandy Hotel, que agora serão visitados.

O distrito é atravessado por duas ruas comerciais das mais prestigiosas da cidade: Rue de Rivoli, com suas arcadas, lojas renomadas, livrarias e hotéis de luxo, e Rue Saint-Honoré, em torno das galerias do Palais-Royal, que abrigavam, no passado, casas de jogos de azar e bordéis.


Iniciamos pelo, na época de nossa visita, Hôtel Normandy, o lendário hotel nas proximidades da Rue Saint-Honoré, com sua imponente arquitetura haussmanniana que data de 1877 (desde 2019, passou a chamar-se Normandy Le Chantier, um novo conceito de hotel, amalgamando os detalhes históricos das fachadas com a modernidade hoteleira, privilegiando conforto e o estilo contemporâneo).




Fachada do então Hôtel Normandy, erguido em 1877, no estilo Belle Époque; hoje o hotel após remodelação, passou a chamar-se Normandy Le Chantier. Rue de l'Échelle, 7, Quartier des Tuileries, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Mais ao leste, encontra-se o Palais-Royal, inicialmente batizado como Palais-Cardinal, símbolo do poder do cardeal Richelieu.


Em 1624, Armand du Plessis, mais conhecido como cardeal Richelieu, foi nomeado chefe do Conselho do rei Luís XIII; para morar perto do Louvre, onde o soberano residia, adquiriu o Hôtel de Rambouillet; em seguida, iniciou grandes reformas, praticamente demolindo o prédio anterior: a residência tinha que ser suntuosa, condizente com seu cargo, haja vista que Richelieu, além de ser um alto dignitário da Igreja Católica, era uma espécie de primeiro-ministro do rei; assim, o arquiteto Jacques Lemercier redesenhou os luxuosos apartamentos e fez construir novos edifícios; apaixonado por arte, o cardeal mandou instalar duas galerias de pintura, uma na ala sudoeste e outra na ala noroeste, esta existente até hoje; a ala sudeste abrigava um teatro desde 1637; sob o reinado de Luís XIV, Molière apresentou todas as suas peças ali, enquanto Jean-Baptiste Lully encenou suas óperas.


Após a morte do cardeal, em 1642, o palácio foi legado a Luís XIII, que, por sua vez, faleceu no ano seguinte, tendo sua esposa, Ana da Áustria, rainha da França e nova regente, decidido mudar-se para lá com seus dois filhos, o jovem Luís XIV e Filipe de Orléans; assim, o Palais-Cardinal tornou-se então o Palais-Royal, porém a família não guardou boas lembranças desse período; na noite de 5 de janeiro de 1649, os membros da família real fugiram do palácio e buscaram refúgio em Saint-Germain-en-Laye, em razão da revolta, conhecida como Fronda Parlamentar, liderada pelos magistrados do Parlamento de Paris que buscavam impor uma monarquia mais moderada; o jovem Luís XIV jamais esqueceria aquela noite terrível, que mais tarde o levaria a abandonar o Palais-Royal e Paris em favor do Castelo de Vincennes e, posteriormente, do Palácio de Versalhes.


Em 1661, quando Luís XIV foi morar no Louvre, o palácio passou a ser a residência de Filipe I, duque de Orléans, seu irmão mais novo, tornando-se sua propriedade definitiva em 1692; quando Luis XIV faleceu em 1715, seu sobrinho, Filipe II, foi nomeado regente do reino; até 1722, ano da coroação de Luís XV, ou seja, durante 7 anos, o edifício foi o centro da vida política e artística do país; ali aconteciam constantemente festas e jantares suntuosos, a era de ouro do Palais-Royal.


Em 1763, um incêndio destruiu o teatro-ópera, que depois foi reconstruído, mas, em junho de 1781, outro incêndio devastou novamente o edifício que abrigava o teatro; nesse mesmo ano, Luís Filipe II de Orléans, bisneto de Filipe II, incumbiu o arquiteto neoclássico Victor Louis da tarefa de construir novos edifícios, cujos térreos poderiam ser alugados a comerciante; os edifícios foram dispostos em três lados dos jardins e adornados com galerias; cada uma levando o nome de um dos filhos do duque: Valois, Montpensier e Beaujolais; em 1786, o arquiteto também empreendeu a criação de um novo teatro, cujo nome se tornou lendário: Comédie-Française, que até hoje está em atividade.


Adepto dos ideais filosóficos do Iluminismo, Luís Filipe II, que se juntara à facção jacobina, era abertamente hostil ao seu primo, o rei Luís XVI; antes mesmo do início da Revolução Francesa, o Palais-Royal já assumia ares de um “anti-Versalhes”; em 12 de julho de 1789, foi lá que o jornalista Camille Desmoulins soube da demissão de Necker, ministro das Finanças, por Luís XVI; subindo numa mesa, ele incitou a multidão a pegar em armas; a raiva cresceu e se espalhou pela capital: dois dias depois, em 14 de julho, o povo invadiu a Bastilha; em 1792, Luís Filipe II foi eleito deputado por Paris na Convenção Nacional e adotou o nome de “Philippe Égalité” (Filipe Igualdade); o próprio palácio tornou-se um centro da vida pública; atrás de suas fachadas, funcionavam lojas, oficinas, cafés e prostitutas, com toda Paris se reunindo lá; mais todo o seu discurso dirigido à igualdade não o salvou da guilhotina, tendo sua cabeça cortada em 6 de novembro de 1793; a revolução engole seus próprios filhos.


Em 1814, a propriedade pertencia ao futuro rei Luís Filipe; ele encomendou, na ocasião, a construção da luxuosa Galeria de Orléans, com 24 boutiques, teto de vidro e iluminação a gás, inspirando mais tarde a moda das passagens cobertas em Paris; o complexo palaciano chegou a conter mais de 400 lojas espalhadas por seus jardins, ao lado de teatros, restaurantes, casas de jogos de azar e bordéis, um verdadeiro frenesi de luxo e devassidão, que foi imortalizado por Balzac em sua Comédia Humana, porém, tudo isso chegou ao fim em 1836, com o fechamento das casas de jogos.


Em 1848, eclodiu a Revolução, e o rei Luís Filipe foi deposto; o palácio foi saqueado e pilhado antes de se tornar propriedade do Estado; em 1871, um incêndio devastou o edifício durante a Comuna de Paris; o prédio foi restaurado, sob o comando do arquiteto Prosper Chabrol, e, quatro anos depois (1875), tornou-se a sede do Conseil d’Etat (Conselho de Estado), substituto do Conselho do Rei; o complexo palaciano passou, também, a abrigar outras instituições, como o Conseil Constitutionnel (Conselho Constitucional), em 1958 e o Ministère de la Culture (Ministério da Cultura), em 1959, então sob a direção de André Malraux, onde permanece até hoje, instalado na Ala Valois.




Fachada do Palais Royal a partir da Place du Palais-Royal; palácio do cardeal Richelieu, depois da família real e, em seguida, dos Orléans; a fachada atual e a colunata ladeada por dois conjuntos de arcadas gradeadas que fecham o pátio no lado da Place du Palais-Royal datam da obra realizada pelo arquiteto Moreau-Desproux, entre 1764 e 1770 após o incêndio de 1763; o brasão de Orléans que outrora adornava os frontões da fachada foi removido em 1848; a abóbada tripla que dá acesso ao segundo pátio, conhecido como Cour d'Honneur (Pátio de Honra), é obra do arquiteto Contant d'Ivry, que trabalhou na mesma época que Moreau-Desproux. Rue Montpensier, 8, Quartier des Tuileries, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




Pátio de Honra do Palais-Royal com as Colonnes de Buren e, ao fundo, a Ala de Valois, onde está instalado o Ministère de la Culture; Daniel Buren inaugurou sua obra Deux Plateaux (Dois Platôs), com suas colunas listradas em preto e branco, no Cour d’Honneur (Pátio de Honra); essas colunas, apelidadas de colunas de Buren, são hoje um dos símbolos de Paris. Rue Montpensier, 8, Quartier des Tuileries, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




Jardim do Palais-Royal, com o pórtico do palácio ao fundo; Luís Filipe II de Orléans, o “Philippe Égalité”, foi o responsável pelo conjunto arquitetônico do complexo palaciano como o conhecemos hoje, projeto do arquiteto Victor Louis, legando aos parisienses um dos seus mais belos jardins públicos; como parte de um grande empreendimento imobiliário, ele mandou construir casas ao redor do parque localizado atrás do palácio, seguindo o mesmo modelo arquitetônico, e as alugou para particulares. Rue Montpensier, 8, Quartier des Tuileries, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


À esquerda do palácio, visitamos a Place des Pyramides, onde pudemos apreciar a bela e dourada estátua equestre de Santa Joana D'Arc.


Encomendado pelo governo da Terceira República após a derrota de 1870, o monumento tinha como objetivo restaurar a confiança da nação humilhada; a estátua, obra do escultor Emmanuel Frémiet, foi erguida em 1874 no centro da Praça das Pirâmides, não muito longe de onde a heroína fora ferida durante sua tentativa frustrada de entrar em Paris. Originalmente, e até 1914, essa efígie de Joana d'Arc foi o símbolo da reconquista.


Segundo a tradição, Joana d'Arc escutou as vozes do Arcanjo Miguel e das Santas Catarina de Alexandria e Margarida de Antioquia incumbindo-lhe da seguinte missão: livrar a França e proclamar Carlos VII, rei da França; a menina contou isso aos pais e, depois, às autoridades, que consideraram a estória uma brincadeira de uma analfabeta; porém, quando a jovem, de 17 anos, que fugiu de casa, predisse, com exatidão, uma derrota da França contra os invasores ingleses, as suas “fantasias” adquiriram maior valor.


Ao ser examinada por alguns teólogos, que a interrogaram sobre a sua fé, Joana foi posta à frente de um exército, que marchou para Orléans e a sitiou; em somente oito dias aconteceu um prodígio em termos militares: os ingleses foram, várias vezes, derrotados na batalha, onde a audácia da "donzela" foi incomparável; Orléans foi libertada e, em 17 de julho de 1429, atingiu o auge da sua glória: Carlos VII foi coroado em Reims e, ao seu lado, encontrava-se Joana d'Arc, com seu estandarte.


No entanto, tanto os ingleses como as próprias autoridades francesas ficaram insatisfeitas com a liderança da jovem, e, após um conluio entre eles, Joana foi entregue aos ingleses, tendo sido julgada por feitiçaria por cinquenta homens cultos da França e da Inglaterra, condenada como herege e executada na fogueira em 30 de maio de 1431.


A Igreja Católica reabilitou, solenemente, Joana, em 1456, Pio X a beatificou, em 1910, e, dez anos depois, Bento XV a canonizou.




Estátua equestre de Jeanne d'Arc (Joana d'Arc), que foi ferida nas proximidades da Porta Saint-Honoré; o monumento foi instalado em 1874; a estátua equestre propriamente dita foi executada por Emmanuel Frémiet, o pedestal criado pelo arquiteto Paul Abadie e a grade de proteção projetada por Gabriel Davioud. Place des Pyramides, Quartier des Tuileries, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


Mais ao norte, encontra-se a Église Saint-Roch.


O corpo da igreja foi construído entre 1653 e 1690, segundo projeto de Jacques Le Mercier; Jules Hardouin-Mansart ergueu a Capela da Virgem ao norte da igreja (1706-1710), mas somente entre 1736 e 1738, a igreja recebeu sua fachada, projetada por Robert de Cotte.


Aproveitando-se dessa espetacular sucessão de amplos volumes, o padre Jean-Baptiste Marduel, entre 1750 e 1770, dotou a igreja com uma decoração que combinava pintura e escultura.


Os estragos da Revolução Francesa alteraram severamente a cenografia religiosa concebida por Marduel, sem, contudo, destruí-la; ao mesmo tempo em que recebia nova decoração, principalmente pinturas encomendadas pela cidade de Paris, Saint-Roch também incorporou muitos monumentos esculpidos e pinturas provenientes de igrejas destruídas, podendo, assim, ser considerada um museu da escola francesa dos séculos XVII e XVIII.


São Roque, filho único de ricos mercadores, nasceu em Montpellier por volta de 1350, apresentando uma marca vermelha em forma de cruz no peito; seus pais faleceram quando ele ainda era adolescente; generoso e caridoso, como seus pais, Roque dedicou-se a ajudar os pobres, tendo, antes de partir de Montpellier em peregrinação, distribuído todos os seus bens; ao longo do caminho, passou por inúmeras cidades devastadas pela peste; visitou, cuidou e curou os doentes até chegar a Roma; lá, conheceu o Papa Urbano V.


Quando Roque deixou Roma três anos depois retomou sua peregrinação, mas acabou contraindo a doença e retirou-se para uma floresta para evitar infectar outros, apenas um cão vindo alimentá-lo, trazendo-lhe diariamente um pão furtado de seu dono; este, intrigado com o comportamento do animal, seguiu-o até a floresta e encontrou Roque ferido, a quem pôde então socorrer; ao retornar à França, foi preso por ter sido confundido com um espião, condenado e lançado na prisão; cuidou e curou seus companheiros de cela e jamais revelou sua identidade; morreu cinco anos depois, por volta de 1379.


Nos degraus da igreja, desenrolou-se um episódio violento, durante a Revolução Francesa, que catapultou a importância militar de Napoleão Bonaparte diante dos demais líderes do movimento, ao mesmo tempo em que se tornou um das mais vergonhosas ações militares do "pequeno caporal".


Em 1795, Napoleão tinha caído em desgraça por ser amigo do irmão de Robespierre; apontado como jacobino, tendo sido afastado do exército francês; no mesmo ano, o partido dos monarquistas se revoltou com a aprovação da Constituição com minoria de votos, ante a grande abstenção verificada na votação, passando a confrontar, nas ruas, as tropas leais à Convenção Nacional; Barras, comandante supremo das forças armadas de Paris e do interior, convocou Napoleão Bonaparte, então general de brigada afastado, para comandar efetivamente as tropas da Convenção com a finalidade de debelar a revolta; Napoleão, no dia 5 de outubro de 1795, empregando inclusive peças de artilharia, deu ordens aos seus soldados para atirar contra os revoltosos, sendo que os que conseguiram sobreviver, se refugiaram nas proximidades do Palais-Royal e na escadaria da Église Saint-Roch; Napoleão posicionou novamente suas peças de artilharia e seus soldados em frente à igreja e deu ordem para que abrissem fogo, provocando a morte de muitos insurgentes e alcançando, assim, o fim da revolta.


Dessa forma, Napoleão adquiriu a estatura de um líder militar que não teme as consequências de suas ações violentas, tornando-se um herói republicano e fazendo do emprego da artilharia a chave da força militar.


"Lá fora, sob as arcadas do Palais-Royal, grupos vociferam. Estão indignados com os resultados do referendo, que aprovou a Constituição por pouco mais de um milhão de votos, com apenas cinquenta mil contra, mas com mais de cinco milhões de abstenções. (...) De repente, ouvem-se tiros. Uma patrulha do exército é alvejada. Jovens armados passam. Alguns carregam o emblema da Vendée, composto por um coração e uma cruz [monarquistas].

"(...)

"Sabe-se que a Convenção, preocupada, está convocando generais e oficiais desgraçados por seu jacobinismo para defendê-la.

"(...)

"Não se pode permitir que os monarquistas derrubem o regime. Isso abriria as portas para as tropas inimigas, para os ingleses, que têm quarenta navios perto de Brest, e para os austríacos, que estão reunindo quarenta mil homens diante de Estrasburgo (...) Barras (...) oferece a Napoleão o cargo de segundo em comando.

"(...)

"- Eu aceito, diz Napoleão com uma voz calma e seca. Mas eu o previno (...) Se eu tirar a espada, retoma ele, ela somente reentrará na bainha quando a ordem estiver restabelecida, custe o que custar.

"(...)

"Barras faz um sinal, Bonaparte avança e ordena aos artilheiros que abram fogo.

"Nas ruas, é a debandada, corpos ceifados por tiros da metralha. A fumaça dos disparos obscurece a via e as fachadas. Membros da seção [monarquistas] organizam a resistência nos degraus da Église Saint-Roch, outros se reúnem no Palais-Royal. Napoleão monta seu cavalo. É preciso estar onde se bate. Ele aproxima-se do edifício Feuillants na rue du Faubourg-Saint-Honoré. O cavalo tomba, morre. Napoleão levanta-se ileso, enquanto os soldados avançam rapidamente. Ele ordena abrir fogo contra os membros da seção reunidos. Os degraus da escadaria da Église Saint-Roch são logo cobertos de corpos e manchados de sangue.

"As ruas ficam vazias. A vitória foi garantida em menos de duas horas". (tradução livre do francês - pp. 193 a 195) "Napoléon", de Max Gallo, Éditions Robert Laffont, S.A., Paris, 2012 - grifos em itálico nossos).




Ataque da Convenção Nacional. Insurreição monarquista de 13 Vendémiaire, Ano IV (5 de outubro de 1795), fuzilaria em frente à Église Saint-Roch; o general Bonaparte ordenou que os canhões disparassem contra os insurgentes realistas; os impactos na fachada ainda são visíveis hoje. Gravura de Abraham Girardet (1764-1823). Água-forte de Pierre Gabriel Berthault (1748-1819). Musée de la Révolution française. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Attaque_de_la_Convention_nationale,_1795.jpg




Altar na ala oeste do transepto onde se encontra o quadro "Saint Denis prêchant les gaulois" (São Dinis ou Dionísio pregando aos gauleses), com esboço de Jean-Baptiste Deshays e pintura de Joseph-Marie Vien, concluído em 1767; na pintura, São Dinis, bispo de Paris, prega aos gauleses para convertê-los, sendo auxiliado pelos Céus: Maria está presente com a Cruz, acompanhada por anjos, um dos quais coroa o santo e traz na outra mão a palma do martírio, alusão às torturas atrozes sofridas pelo santo por ordem do prefeito romano Domiciano. Église Saint-Roch, Rue Saint-Honoré, 296, Quartier des Tuileries, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.




Capela da Virgem, projetada pelo arquiteto Jules Hardouin-Mansart e erguida entre 1706 e 1710; sobre o altar encontra-se o conjunto escultórico conhecido como Nativité du Val-de-Grâce (Natividade de Val-de-Grâce), obra do escultor Michel Anguier de 1665, vindo de outra igreja; à esquerda da capela, encontra-se a estátua de Saint Jérôme (São Jerônimo) de autoria do escultor Lambert-Sigisbert Adam, criada em 1745 ou 1752. Église Saint-Roch, Rue Saint-Honoré, 296, Quartier des Tuileries, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.


No nosso próximo post, vamos conhecer Montmartre.


Fontes:


Wikipedia


"Paris: tous les plus beaux monuments", Guides Voir, Hachette Tourisme, Paris, 2010.
















Comentários


Obrigado por se subscrever!

SUBSCREVER

bottom of page