Paris - Parte IX - Jardin des Plantes e Quartier Latin - Região de Île-de-France - França - 2012
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Nouveau Village "Chez Momo", restaurante de comida marroquina (cuscuz e tajine), no tradicional e medieval distrito Quartier Latin. Rue Xavier Privas, 7, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Paris - Parte IX
Nossa viagem agora se dirige ao distrito do Jardin des Plantes.
Essa região às margens do rio Sena, na qual se encontra a Arènes de Lutèce, respira tranquilidade graças aos vastos espaços ocupados pelo Hôpital de la Pitié-Salpêtrière e o Jardin des Plantes, criado por volta de 1626, no reinado de Luís XIII; os reis do Antigo Regime cultivavam plantas medicinais, e o local, hoje, abriga o Musée National d'Histoire Naturelle.
No final da Rue Mouffetard, onde uma feira animada acontece todos os dias, e ao redor da Place de la Contrescarpe, impera ainda o charme de uma vila medieval.
Nossa primeira parada, o Musée National d'Histoire Naturelle.
Um decreto do rei Luís XIII, datado de 8 de julho de 1626, autorizou a fundação de um jardim de plantas medicinais em um subúrbio de Paris, a pedido do botânico e médico Guy de La Brosse; a administração do jardim foi confiada a Jean Héroard, o primeiro médico do rei.
Um novo decreto do rei, em 15 de maio de 1635, estabeleceu, entre o rio Bièvre e a Rue du Faubourg Saint-Victor (atual Rue Geoffroy Saint-Hilaire), o Jardin Royal des Plantes Médicinales (Jardim Real de Plantas Medicinais), sob sua proteção; após cinco anos de trabalho e plantio necessários, o jardim foi aberto ao público em 1640, de forma gratuita e com currículo ministrado em francês, dividido em três partes — botânica, química e anatomia; as plantas eram cultivadas para serem utilizadas na preparação de remédios e medicamentos, enquanto estudos eram conduzidos para aprimorar a compreensão de suas propriedades medicinais e uso terapêutico, tudo isso com o objetivo, também, de formar futuros médicos e farmacêuticos através do ensino de botânica, anatomia humana e química.

Jardim do Rei para a Cultura das Plantas Medicinais de Paris, desenho de 1636 feito por Frédéric Scalberge. Par Frédéric Scalberge — www.mnhn.fr/fr/jardin-du-roi, Domaine public, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=177929497
Na virada do século XVIII, a arte de curar com plantas deu lugar à história natural, marcando o início da longa administração - cerca de 50 anos - do naturalista e matemático Georges Louis Leclerc, conde de Buffon, nomeado superintendente do Jardin des Plantes em 1739; seu renome internacional e trabalho incansável fizeram do instituto um dos principais centros científicos da época, bem como resultaram na expansão desse refúgio natural no coração de Paris, que passou a abranger 26 hectares, estendendo-se até o rio Sena.
Buffon se empenhou em desenvolver todos os departamentos de estudo do que viria a ser, em 1793, o Museu Nacional de História Natural, com 12 cátedras de ensino; em 1749, publicou os três primeiros volumes de sua "História Natural", uma imensa obra que acabaria por compreender 36 volumes e que seus discípulos completariam após sua morte, em 1788, e na qual transpareciam as primeiras intuições evolucionistas ("A origem das espécies", de Charles Darwin surgiria somente em 1859).
Um dos alunos formados pelo instituto se tornou o pai da química moderna: Antoine Laurent Lavoisier, o nobre e químico francês que cunhou a célebre frase: "Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma"; mas, infelizmente, foi condenado à morte pela Revolução Francesa, na época do Terror, controlado por Robespierre, e executado na guilhotina em 1794.
Durante a Revolução Francesa, imperou a ideia de popularizar a ciência, levando a Assembleia Constituinte a conceder à instituição personalidade jurídica própria: em 1793, um decreto estabeleceu o Musée National d'Histoire Naturelle; a nova instituição passou a ser administrada por um diretor e adotou objetivos que permanecem relevantes até hoje: pesquisa, educação pública e gestão de acervos.

Lado esquerdo da fachada leste da Grande Galerie de l'Évolution, antiga Galerie de Zoologie, inaugurada em 1889, com base no projeto do arquiteto francês Louis Jules André. Musée National d'Histoire Naturelle, Rue Cuvier, 57, Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.

A alegoria "A Ciência", ladeada pelos medalhões representando os naturalistas franceses, à esquerda, Geoffroy Saint-Hilaire e, à direita, Jean-Baptiste de Lamarck. Centro da fachada leste da Grande Galerie de l'Évolution, Musée National d'Histoire Naturelle, Rue Cuvier, 57, Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.

Monumento a Buffon, diretor do Jardin des Plantes de 1739-1788, escultura em bronze realizada pelo escultor francês Jean Carlus. Musée National d'Histoire Naturelle, Rue Cuvier, 57, Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Ainda no distrito do Jardin des Plantes, fomos conhecer a Grande Mosquée de Paris (Grande Mesquita de Paris).
Em dezembro de 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, o governo francês decidiu construir a Mesquita de Paris em reconhecimento aos soldados muçulmanos que haviam se sacrificado pela França - naquele momento, mais de 100.000 deles tinham perdido a vida -; assim, o país já contabilizava um grande número de soldados muçulmanos entre seus heróis caídos, particularmente em Verdun, durante a terrível "Batalha do Destino da França".
A pedra fundamental foi lançada em 1922 no local do futuro Mihrab, orientado para Meca, na presença de figuras proeminentes francesas e muçulmanas.
O estilo arquitetônico escolhido, o neomourisco, permitindo uma fusão de diversas heranças: a da Andaluzia e a do Norte da África com a estética renovada de Paris; para realizar o projeto foram contratados arquitetos renomados: Maurice Mantout, Maurice Tranchant de Lunel, Charles Heubès e Robert Fournez.
A inauguração da Grande Mesquita se deu em 15 de julho de 1926, na presença do presidente da República Francesa, Gaston Doumergue.
A mesquita se organiza em torno de um grande pátio com uma bacia central; o salão de oração apresenta uma rica decoração de inspiração magrebina, e cada cúpula tem uma ornamentação diferente; o complexo ainda tem uma biblioteca, um centro de ensino, um hammam (sala de purificação), um salão de chá e um restaurante.
O argeliano Kaddour Ben Ghabrit foi o fundador do Institut Musulman de la Grande Mosquée de Paris e seu diretor de 1922 a 1954.
A Grande Mesquita é administrada pela Société des Habous et des Lieux Saints de l'Islam.

Grande Mosquée de Paris, erguida entre 1922 e 1926, projeto dos arquitetos Maurice Mantout, Maurice Tranchant de Lunel, Charles Heubès e Robert Fournez, em estilo neomourisco (neomudéjar - hispano-mourisco); no detalhe, o Pátio de Honra, seu jardim e o minarete de 33 metros. Place du Puits de l'Ermite, 2b, Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.

O Pátio de Honra, o jardim à andaluza, com fontes centrais e escadarias, e, à esquerda, o belo minarete de 33 metros de altura. Grande Mosquée de Paris, Place du Puits de l'Ermite, 2b, Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.

O Grande Pátio (pátio central), feito de mármore, com uma grande bacia ao centro. Grande Mosquée de Paris, Place du Puits de l'Ermite, 2b, Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.

A biblioteca da Grande Mosquée de Paris, Place du Puits de l'Ermite, 2b, Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Fomos, então, para a Arènes de Lutèce (Arena de Lutécia), as ruínas de um anfiteatro galo-romano, provavelmente erguido entre o final do século I e início do século II.
Foi durante a construção da Rue Monge, como parte dos grandes projetos de renovação urbana do barão Haussmann, que uma parte da arena foi descoberta em 1869, identificada pelo arqueólogo Théodore Vacquer, mas o imperador Napoleão III, na época, não se mostrou disposto a investir a quantia necessária para restaurá-la, tendo o local simplesmente sido coberto novamente.
Quando a então proprietária do terreno decidiu, na década de 1880, construir no lugar uma garagem de bondes, figuras proeminentes, como o famoso escritor Victor Hugo e o historiador francês e ex- ministro da Instrução Pública, Victor Duruy, se envolveram na luta pela preservação da ruína romana, conseguindo convencer as autoridades nesse sentido.
Assim, a praça que incorpora a arena foi inaugurada em 1892; a restauração continuou até 1918, supervisionada pelo antropólogo e pré-historiador Louis Capitan (1854-1929), cujo nome foi dado em 1931 à praça vizinha dedicada ao lazer e à diversão, construída no local do antigo reservatório de água de Saint-Victor, destruído em 1922; as duas praças agora formam um único espaço verde.
No interior da Arena, que recebe regularmente companhias de teatro e todo tipo de eventos (concertos, etc.), os entusiastas da petanca (espécie de bocha) e jogadores amadores de futebol podem desfrutar do seu esporte favorito.
As Arènes de Lutèce, juntamente com as Termas de Cluny, são os únicos edifícios ao ar livre da era romana preservados na capital.

Arènes de Lutèce (Arena de Lutécia), as ruínas de um anfiteatro galo-romano, provavelmente erguido entre o final do século I e início do século II. Rue des Arènes, 4, Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Próximo à Arena de Lutécia, na Rue Clovis, encontra-se um pequeno pedaço da Muralha de Filipe Augusto, que este jovem rei fez construir entre 1190 e 1215 ao redor de Paris para protegê-la de invasores, que, a maioria das vezes, vinham do oeste e navegavam pelo rio Sena para sitiar a cidade, como foi o caso entre 885 e 887 com o cerco viking.
Com um revestimento externo e um revestimento interno preenchido com argamassa, era extremamente resistente; na sua base, a muralha media aproximadamente 3 metros, em comparação com cerca de 1,90 metros no alto; a largura da muralha foi projetada para que dois soldados com armaduras pudessem passar um pelo outro durante patrulhas ou ataques; a altura da muralha era de 8 a 10 metros.

Pequeno trecho da Muralha de Filipe Augusto, erguida ao redor de Paris provavelmente entre 1190 e 1215; neste ponto, ela mede aproximadamente 3 metros de largura e 9 metros de altura. Rue Clovis, 5-7, Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.

Muralha de Filipe Augusto, erguida entre o final do século XII e início do século XIII, com o objetivo de proteger Paris de invasores, que, a maioria das vezes, vinham do oeste e navegavam pelo rio Sena para sitiar a cidade, como foi o caso entre 885 e 887 com o cerco viking. Rue Clovis, 5-7, Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Logo abaixo, está a Place de la Contrescarpe.
A praça é um entroncamento, um ponto de encontro da Rue Descartes e Rue du Cardinal Lemoine, vindas do norte, que formam um V e se cruzam com a Rue Blainville, vinda do oeste, e a Rue Lacépède, vinda do leste; na outra extremidade da praça, seguindo para o sul, está a Rue Mouffetard – conhecida carinhosamente pelos parisienses como “Rue Mouffe” – uma estreita e antiga rua comercial.
Seu nome se deve à proximidade da antiga Rue de la Contrescarpe-Saint-Marcel, atualmente dividida entre a Rue Blainville e a Rue du Cardinal Lemoine, e se refere à contraescarpa, a encosta externa do fosso em frente à muralha de Filipe Augusto.
A praça atual foi criada em 1852 no local do cruzamento ladeado pelo cabaré Pomme de Pin, apreciado pelo escritor francês humanista da Renascença François Rabelais e frequentado, no século XVI, pelos poetas da Plêiade, particularmente Pierre de Ronsard e Joachim du Bellay; hoje, com seus terraços de café e músicos de rua, muito animada à noite e nos fins de semana, oferece um quadro pitoresco onde se vem discutir em torno de uma garrafa.

Place de la Contrescarpe com Rue Mouffetard, local de boêmia de Paris. Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.

Interior da Sorveteria Amorino, localizada na Rue Mouffetard, 18, confluência com a Place de la Contrescarpe, Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Seguindo para o sul, ingressamos na Rue Mouffetard.
As origens da rua remontam à época em que Paris era apenas Lutetia, um modesto povoado às margens do rio Sena, habitado pela tribo dos parisii; os engenheiros romanos, com sua característica precisão em infraestrutura, projetaram uma estrada (via superior), no final do século I e início do II, que conectaria esse posto avançado do norte às grandes cidades do sul — Lyon e, por fim, à própria Roma; essa antiga via seguia as alturas naturais da Rive Gauche (margem esquerda), particularmente o Monte Sainte-Geneviève, subindo do vale do rio através do que viria a ser o Quartier Latin.
Na época medieval, a rua evoluiu de uma simples porção da via de transporte para uma vibrante artéria comercial; o nome Mouffetard conta uma história de transformação, possivelmente derivado de "Mouffe-tard", que fazia referência aos odores nauseabundos que emanavam do rio Bièvre, localizado nas proximidades, onde curtidores e tintureiros de couros exerciam seus ofícios malcheirosos; esse nome refletia o papel da rua como um bairro de trabalhadores simples, onde o artesanato e o comércio geravam a riqueza que contribuiria para tornar Paris uma grande cidade; outros já dizem que deriva da palavra pela qual o lugar era conhecido: Mont-Cétard.
A Fontaine du Pot-de-Fer, localizada na esquina da Rue du Pot-de-Fer com a Rue Mouffetard, foi criada em 1624, já na Idade Moderna, tornando-se a única fonte de água pública desse período no bairro que escapou à modernização da cidade; muitas das casas que a ladeiam datam do séculos XVI, XVII e XVIII e respeitam o traçado que via tinha na Idade Média.
Hoje, a Rue Mouffetard se apresenta como um exemplo notável de preservação histórica bem-sucedida em um bairro vivo e ativo; ao contrário de peças de museu congeladas no tempo, essa rua continua a evoluir, mantendo sua essência, com novos empreendimentos realizados por artesões contemporâneos, que contribuem com a tradição comercial sem comprometer sua integridade histórica.
Também é famosa pelo seu mercado aberto popular que ocorre no final da via.

Au Petit Bistrot, instalado no térreo de um prédio edificado possivelmente em meados do século XIX; o estabelecimento oferta pratos da cozinha tradicional francesa, receitas clássicas revisitadas com simplicidade e generosidade, como "escargot de bourgogne", "foie gras", "steak tartare", "confit de canard", "crème brûlée à la cassonade" e "profiteroles au chocolat chaud". Rue Mouffetard, 89 (uma das ruas mais antigas de Paris), Jardin des Plantes, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Agora o Quartier Latin, ou o Distrito (ou Bairro) Latino.
Mas por que Latin?
Ora, falava-se prioritariamente latim na Rive Gauche (margem esquerda) do Sena desde que, em 1118, o filósofo Abélard, expulso do claustro de Notre-Dame, passou a liderar 3.000 de seus alunos no Monte Saint-Geneviève; durante o século XIII, os albergues de estudantes chamados também collèges se multiplicaram na região; um deles, criado em 1257 por Robert de Sorbon para estudantes pobres, entrará para a posteridade; ao fio dos séculos, a tradição universitária do Quartier Latin manter-se-á em torno da venerável Sorbonne e dos Liceus; os mais prestigiosos entre estes últimos, Henri-IV e Louis-le-Grand, viram passar numerosas personalidades francesas por seus bancos escolares.
Se o distrito continua a atrair jovens do mundo inteiro para estudar nessas prestigiosas instituições de ensino, hoje, muitos turistas se misturam entre eles, e suas velhas ruas estão repletas de vendedores de lembrancinhas e sanduíches gregos; sempre muito animada com seus numerosos cinemas, livrarias, cafés e clubes de jazz, conservando, assim, uma atmosfera inimitável.
O Panteão, que história incrível.
Durante a Guerra da Sucessão Austríaca, Luís XV, em 1744, adoeceu gravemente em Metz e invocou a proteção de Santa Genoveva, padroeira de Paris.
Recuperado milagrosamente, o rei fez uma peregrinação à abadia situada no Monte Sainte-Geneviève, tendo prometido aos monges a reconstrução de sua antiga igreja, dedicada há quase mil anos à padroeira de Paris e da França.
Em razão dos parcos recursos estatais, na época, organizou-se uma loteria real, e, somente quase 20 depois da promessa, em 6 de setembro de 1764, a primeira pedra do edifício foi lançada pelo próprio rei.
Para a edificação da Église Sainte-Geneviève, foi escolhido o arquiteto Jacques-Germain Soufflot, tendo este criado um projeto com o objetivo de rivalizar com a Basílica de São Pedro, em Roma, e a Catedral de São Paulo, em Londres: uma planta em cruz grega, encimada por uma cúpula tripla; a estrutura do edifício e a escolha dos materiais lhe renderam tanto elogios quanto críticas; infelizmente, ele faleceu antes da conclusão do monumento, tendo este sido concluído, em 1790, por seu colaborador, Maximilien Brébion, e seu aluno, Jean-Baptiste Rondelet.
A igreja, que se tornou o Panteão durante a Revolução, oscilou entre essas duas funções ao longo do século XIX; a cada mudança de regime político, a função do edifício era alterada, ocorrendo nada menos que seis vezes: 1) após a morte de Mirabeau em 1791, o edifício tornou-se uma necrópole nacional reservada para a veneração de homens ilustres; os corpos dos filósofos iluministas Voltaire e Rousseau, ingressaram lá em 1791 e em 1794, respetivamente; 2) Napoleão Bonaparte, em 1806, devolveu o edifício à Igreja Católica, mas manteve a cripta para sepultar os dignitários do Império; 3) em 1815, durante a Restauração Monárquica, o monumento tornou-se, em sua totalidade, novamente uma igreja; 4) mas retomou sua função como Panteão em 1830, sob a Monarquia de Julho, sendo batizado de Templo da Humanidade, em 1848, durante a Segunda República; 5) voltou a ser uma igreja com o advento do Segundo Império em dezembro de 1851; e, finalmente, 6) na Terceira República, o monumento reteve definitivamente seu papel como Panteão, em 1885, quando do funeral do escritor Victor Hugo.
Além das três personalidades acima citadas, são homenageados na cripta do Panteão, dentre outros: a primeira ganhadora do Prêmio Nobel, a física polonesa, naturalizada francesa, Marie Curie; o físico francês e ganhador do Prêmio Nobel, Pierre Curie; o escritor francês Alexandre Dumas, autor dos romances históricos "Os três mosqueteiros" e "O conde de Monte-Cristo", a cantora, dançarina e vedete norte-americana Joséphine Baker (não está inumada, apenas homenageada com um cenotáfio); o escritor francês Emile Zola, autor do romance naturalista "Germinal" e do artigo "J'accuse"; o professor francês e inventor da escrita para cegos Louis Braille; o engenheiro e político Sadi Carnot, o 5º presidente da República Francesa; o escritor e pensador político francês André Malraux; o general francês, herói das guerras revolucionárias, Jean Lannes.

Panteão, erguido inicialmente como Église Sainte-Geneviève entre 1764 e 1790, com base no projeto do arquiteto Jacques-Germain Soufflot; a fachada principal é decorada com um grande pórtico suportado por colunas coríntias e encimado por um frontão triangular, alterado entre 1831 e 1837, durante o reinado de Luís Filipe I (Monarquia de Julho), obra do escultor e medalhista francês David d'Angers, representando a Pátria distribuindo láureas aos seus grandes homens: "Aos grandes homens, a Pátria reconhecida" (tradução livre do francês). Place du Panthéon, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.

A nave do Panteão, tendo ao fundo o local do altar da igreja original, hoje ocupado pela escultura "A Convenção Nacional"; acima, o mosaico "Cristo mostrando ao anjo da guarda da França os destinos do seu povo"; a proximidade espacial destas duas obras reúne num único olhar toda a complexidade deste monumento e as suas oscilações entre a sua finalidade religiosa e laica, refletindo as convulsões históricas da França desde o século XVIII. Place du Panthéon, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Na abside, no lugar que deveria ser ocupado pelo altar, encontra-se o grupo escultórico intitulado "A Convenção Nacional", de autoria de François Sicard.
A obra foi encomendada em 1913 para celebrar o advento da Primeira República; colocada exatamente no local onde o altar normalmente se situaria numa igreja, esta obra expressa o desejo de reafirmar a República e os seus valores neste momento crucial do século XX; menos de 10 anos após a lei de 1905 sobre a separação entre Igreja e Estado, esta escultura é uma forma de personificar a fundação da República Francesa.
A Convenção Nacional governou de 21 de setembro de 1792 a 26 de outubro de 1795, durante a Revolução Francesa; aboliu a monarquia e estabeleceu a República.

"A Convenção Nacional", altar republicano instalado em 1913 (ou 1920) no espaço inicialmente previsto pelo arquiteto Soufflot para o altar religioso; o grupo escultórico foi realizado por François Sicard: no centro desta monumental escultura em pedra, a Convenção Nacional aparece como uma jovem mulher (Marianne) usando um barrete frígio e segurando uma espada abaixada; à esquerda, um grupo de deputados presta juramento com os braços erguidos em direção à Convenção: à direita, soldados simbolizam o exército da República: dois jovens tambores precedem veteranos da infantaria que rodeiam um general a cavalo. Panteão, Place du Panthéon, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.

"Cristo mostrando ao anjo da guarda da França os destinos do seu povo", mosaico da meia-cúpula da abside, realizado entre 1875 e 1884, pela Manufacture de Sèvres com base no desenho do pintor francês Ernest Hébert; à direita de quem observa, o anjo da guarda em pé, portando uma espada, e a Cidade de Paris ajoelhada, carregando um cajado de pastor e segurando na mão direita o Scilicet (o barco que representa Paris), e, à esquerda, Santa Genoveva em pé e Joana d'Arc ajoelhada, segurando uma bandeira; o mosaico fica sobre o grupo escultórico de "A Convenção Nacional". Panteão, Place du Panthéon, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
No interior do Panteão, está instalado definitivamente, desde 1995, o famoso "Pêndulo de Foucault", que foi tema de um livro de mesmo nome do célebre escritor italiano Umberto Eco, autor também do romance histórico "O nome da Rosa".
O astrônomo e físico por trás desse experimento revolucionário foi o francês Léon Foucault; inventor do giroscópio, ele realizou seu primeiro ensaio do pêndulo ao lado de outros cientistas no porão de sua casa em Paris.
Luís Napoleão Bonaparte, então presidente da República, um apaixonado estudante de ciência e história, autorizou, em 1851, Foucault e o engenheiro Gustave Froment a utilizarem a cúpula do Panteão para realizarem seu experimento; eles suspenderam da cúpula um fio de aço de 67 metros de comprimento e uma esfera de latão e chumbo de 28 quilos; um dispositivo feito de madeira e areia foi instalado sob o pêndulo, permitindo que as explicações de Foucault fossem observadas em tempo real a cada oscilação: a ponta de prova fixada na extremidade do pêndulo criava um sulco na areia que se alargava a cada hora, demonstrando, na prática, que a Terra estava em movimento.

O "Pêndulo de Foucault"; instalado em 1851, desmontado depois e reinstalado em 1995, o experimento idealizado pelo físico e astrônomo francês Léon Foucault para demonstrar a rotação da Terra. Panteão, Place du Panthéon, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
A partir de 1885, as alegorias seculares e cívicas passaram a ter precedência sobre as vidas dos santos; as encomendas de esculturas refletem essa evolução; os monumentos a Diderot e Rousseau glorificam os valores universais dos direitos humanos e da democracia.
Denis Diderot foi escritor, filósofo e enciclopedista francês, que viveu no século XVIII e é um dos organizadores e editores, junto com Jean d'Alembert, da obra iluminista "Enciclopédia, ou dicionário racional das ciências, artes e profissões".

Monumento a Diderot e aos Enciclopedistas, instalado em 1913, grupo escultórico de autoria de Alphonse-Camille Terroir. Panteão, Place du Panthéon, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Depois descemos à cripta do Panteão, onde se encontram inumados algumas das personalidades homenageadas.
Na entrada da cripta, podem ser observadas as tumbas dos filósofos iluministas Voltaire e Rousseau.

Tumba de François-Marie Arouet, conhecido como Voltaire; epitáfio sobre a tumba: “Ele lutou contra ateus e fanáticos. Inspirou a tolerância, exigiu direitos humanos contra a servidão do feudalismo. Poeta, historiador, filósofo, expandiu a mente humana e a ensinou a ser livre.” (tradução livre do francês); autor das obras "Tratado sobre a tolerância" e "Dicionário filosófico". Cripta do Panteão, Place du Panthéon, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.

Tumba de Jean-Jacques Rousseau, filósofo suíço, autor das obras literárias "Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens" e "Do contrato social, ou princípios do direito político"; nesta última, ele idealizou um sistema de vida social que deixava a soberania para o povo. Cripta do Panteão, Place du Panthéon, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
No jazigo XXIV encontram-se as tumbas dos escritores franceses Victor Hugo e Émile Zola.

Jazigo XXIV que contém as tumbas dos escritores Victor Hugo e Émile Zola, autores das respeitadas obras literárias "Os miseráveis" e "Germinal", respectivamente. Cripta do Panteão, Place du Panthéon, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Na escada do acesso à cripta, encontra-se uma urna contendo o coração do advogado e político francês Léon Gambetta; na crise que se instalou após o desastre de Sedan (derrota das tropas francesas frente às prussianas, na Guerra Franco-Prussiana, resultando no aprisionamento do imperador Napoleão III), ele assumiu a liderança da França, proclamando, em 4 de setembro de 1870, a restauração da República; se envolveu pessoalmente na defesa de Paris, assediada pelo inimigo, terminando por se evadir utilizando um balão, com o objetivo de organizar a resistência nas províncias, mas terminou por fracassar.

A urna contendo o coração do político francês León Gambetta na escada que dá acesso à cripta; ele assumiu a liderança do país em setembro de 1870, após o aprisionamento do imperador Napoleão III pelos prussianos, depois da derrota francesa na batalha de Sedan, proclamando a República e tentando organizar a defesa de Paris. Panteão, Place du Panthéon, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Na Place du Panthéon encontra-se, também, o prédio da Faculdade de Direito de Paris.
O embrião da instituição foi a Faculté de Décret, criada no século XII, que englobava os direitos canônico e romano; a partir de 1679, passou a ser intitulada Faculté de Droit Civil et Canonique, fazendo uma separação entre os direitos canônico e romano do direito francês (civil) e, em 1771, recebeu um novo edifício na Place du Panthéon, que ainda ocupa hoje.
Fechada, em 1789, pela Revolução Francesa, ela é restabelecida, por determinação de Napoleão Bonaparte, em 13 de março de 1804, com o nome École de Droit de Paris, e, em 1º de janeiro de 1809, passou a se chamar Faculdade de Direito de Paris; em 1896, foi agrupada com outras quatro faculdades parisienses para formar a nova Universidade de Paris.
Hoje a instituição chama-se Faculdade de Direito da Universidade de Paris, e, no seu edifício histórico, funcionam os cursos de direito da Université Paris I Panthéon-Sorbonne e da Université Paris-Panthéon-Assas (Paris II).

Fachada principal da Faculdade de Direito da Universidade de Paris, edifício concluído em 1771. Place du Panthéon, 12, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.

Placa com a denominação "Faculdade de Direito da Universidade de Paris"; sobre a placa, inscrito na parede, o lema da Revolução Francesa: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade" (tradução livre do francês). Edifício da Faculdade de Direito da Universidade de Paris, Place du Panthéon, 12, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Atrás do Panteão, está a Église Saint-Étienne-du-Mont.
No local, existia a Abadia Real de Sainte-Geneviève; durante o século XIII, a igreja da abadia, que servia aos habitantes locais, tornou-se pequena demais, e um segundo edifício foi erguido sob o patrocínio de Saint-Étienne, o primeiro mártir; essa segunda igreja foi reconstruída entre 1492 e 1626, em meio ao contexto turbulento das Guerras de Religião; a primeira igreja, a abacial, foi substituída, por iniciativa do rei Luís XV, no século XVIII, pela nova Église Sainte-Geneviève, que logo depois se tornou o Panteão; os edifícios da abadia foram transformados no Liceu Henri-IV e a igreja abacial foi demolida em 1804 para dar lugar à Rue Clovis
Assim, do complexo abacial restou somente a segunda: a Église Saint-Étienne-du-Mont; construída primordialmente no século XVI, a igreja impressiona os visitantes com seu estilo singular e peculiar na capital, a começar pela fachada; ela representa um período de transição entre o gótico em sua forma final, o flamígero, e o renascimento, influenciado pela Antiguidade.
No interior, pode-se observar a evolução gradual do estilo: a partir de uma planta gótica original, a decoração progride dos arcos ogivais do coro aos arcos semicirculares da nave, com ornamentação renascentista cada vez mais proeminente; uma elegante galeria circunda a igreja.
Um elemento notável da igreja, o jubé, construído no início do século XVI, é o único que resta em Paris; na Idade Média, o jubé servia tanto como barreira entre o coro, onde se sentavam os monges e cônegos, e a nave, onde se sentavam os leigos, quanto como plataforma de onde se proclamava a Palavra Sagrada.

Nave da Église Saint-Étienne-du-Mont; ladeada por arcos semicirculares; o jubé, provavelmente edificado no início do século XVI e atribuído a Philibert de l’Orme, combina uma estrutura interna gótica, como os arcos ogivais, com ornamentação totalmente renascentista; a balaustrada é um entrelaçamento de rendilhado de pedra, esculpido em calcário de Saint-Leu; duas escadarias vazadas serpenteiam em torno dos pilares, servindo tanto ao jubé quanto à galeria, cuja função exata, além de decorativa, não está bem definida; a belíssima imagem de Cristo na cruz, que encabeça o jubé, obra de Ulrich von Grienewald, provém da capela da Escola Politécnica, que foi extinta em 1830. Place Sainte-Geneviève, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
O filósofo, matemático, físico e teólogo francês Blaise Pascal (1623-1662), está sepultado em Saint-Étienne-du-Mont porque faleceu dentro dos limites da paróquia; é autor da obra teológica "Pensamentos", formulou a lei fundamental da física que descreve o comportamento dos fluidos em repouso, ou seja, em equilíbrio estático, conhecida como "Princípio de Pascal" ou "Teorema de Pascal".
Os restos mortais do dramaturgo e poeta francês Jean Racine (1639-1699), autor da tragédia teatral "Fedra", foram trazidos para a igreja após a destruição da Abadia de Port-Royal-des-Champs, pois sua família residia na região; Saint-Étienne foi, de fato, uma paróquia fortemente influenciada pelo jansenismo.

Epitáfio de Blaise Pascal, renomado matemático, físico, filósofo e teólogo francês, inumado na igreja. Église Saint-Étienne-du-Mont, Place Sainte-Geneviève, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
A história da Universidade de Paris começa no século XII, com o filósofo Pierre Abélard atraindo centenas de alunos, pela força do seu ensino, à Monte Sainte-Geneviève, fora da jurisdição do chanceler do Capítulo da Catedral de Notre-Dame; assim, ele estabeleceu um precedente decisivo: era possível lecionar fora do ambiente da catedral.
Várias escolas independentes se instalam no distrito; os estudantes delas falavam latim, terminando por emprestar o nome ao bairro; dessa forma, mestres e alunos passaram a formar uma comunidade, a "universidade".
Em 1215, o legado papal Roberto de Courçon promulgou os primeiros estatutos da Universidade de Paris.
Em 1257, Robert de Sorbon, capelão do rei Luís IX (futuro São Luís), obteve do soberano a cessão de várias casas localizadas na Rue Coupe-Gueule, na Monte Sainte-Geneviève; ali Robert fundou a "Casa da Sorbonne" — um colégio destinado a abrigar estudantes seculares pobres de teologia, ou seja, clérigos que não pertenciam a nenhuma ordem religiosa.
Logo o Colégio da Sorbonne prosperou; sua biblioteca tornou-se uma das mais ricas de Paris; seus debates teológicos atraíam público externo; em poucas décadas, o nome "Sorbonne" passou a designar não apenas o simples colégio, mas toda a faculdade de teologia e, posteriormente, a própria universidade; uma mudança semântica reveladora: a parte absorveu o todo.
A Universidade de Paris, na época, não era um campus no sentido moderno; era uma corporação — um grupo de pessoas unidas por estatutos comuns - não possuindo prédio próprio antes do século XIV; as aulas eram ministradas em salas alugadas, em igrejas e, às vezes, ao ar livre.
No século XVII, o cardeal Richelieu, diretor da Sorbonne, mandou erguer os edifícios da universidade; a capela que ainda se vê hoje data desse período; a Revolução Francesa extinguiu a Universidade e fechou os colégios, mas Napoleão restabeleceu a Universidade Imperial em 1808; a Sorbonne renasceu, mas de uma forma muito diferente.
Atualmente, dos prédios mandados construir por Richelieu resta somente a Capela da Sorbonne; os demais edifícios, imponentes e austeros, datam do século XIX.

Uma das fachadas da Universités de Paris-Sorbonne, provavelmente do século XIX; a Universidade de Paris foi criada em 1215, e uma de suas unidades incorporadas, a Casa da Sorbonne, em 1257, pelo capelão real Robert de Sorbon; a parte terminou por denominar o todo. Rue Saint-Jacques, 54, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
Por fim, fomos ao Museu Nacional da Idade Média, também conhecido como Museu de Cluny.
O museu funciona em dois edifícios históricos ligados umbilicalmente: as termas galo-romanas de Lutécia e o Hôtel de Cluny.
Na época romana, as termas do norte de Lutécia, erguidas na virada do século I para o século II e com quase 6.000 m², estendiam-se por uma área que abrangia aproximadamente os atuais Boulevards Saint-Michel e Saint-Germain, e as Rue de Cluny e des Écoles; além de constituírem os maiores banhos públicos da cidade galo-romana, também eram um importante centro social: as pessoas iam lá não só para se banhar, mas também para relaxar, cortar o cabelo, praticar esportes ou até mesmo ler.
A sala fria, o "frigidarium", conserva suas dimensões e altura originais; suas abóbadas atingem mais de 14 metros de altura e estão entre as mais bem preservadas do norte do país; outras salas das termas, menos conservadas, também podem ser identificadas: uma quente (o "caldarium") e duas mornas (o "tepidarium" e o "destrictarium").
Já o Hôtel de Cluny é um palacete erguido pelos poderosos abades da Ordem de Cluny, de origem beneditina, para servir de apoio aos dignitários na cidade de Paris
A primeira habitação foi construída no local no século XIII, como lugar de residência e de representação, e situava-se a poucos passos do Colégio de Cluny, que abrigava noviços da ordem para seus estudos universitários.
Após sua nomeação como abade de Cluny em 1485, Jacques d’Amboise decidiu reconstruir sua residência parisiense no estilo gótico, particularmente o flamígero (flamboyant); ele encomendou um edifício projetado para reforçar seu status: materiais caros, planta complexa e decoração opulenta; o arquiteto, para evitar o custo da demolição das termas galo-romanas, que ficavam na parte oeste do terreno, integrou engenhosamente a antiga estrutura existente ao novo palacete.
Durante a Revolução Francesa, a residência dos abades de Cluny foi nacionalizada, dividida e vendida a particulares; o palacete foi convertido em apartamentos para aluguel, enquanto o "frigidarium" das termas passou a ser usado como depósito; este último, em 1838, foi adquirido pela Cidade de Paris para servir de depósito lapidário.
Em 1833, o colecionador Alexandre Du Sommerard alugou um apartamento de seis cômodos no Hôtel de Cluny, instalando sua coleção de arte antiga em um ambiente condizente com sua natureza.
Após a morte do colecionador particular, em 1843, o Estado francês adquiriu o Hôtel de Cluny e os cerca de 1.500 objetos reunidos por Alexandre, bem como a Cidade de Paris cedeu ao Estado as termas galo-romanas e a coleção lapidária; assim, foi criado o Museu de Cluny , inaugurado em 17 de março de 1844.
O prédio restou relativamente bem preservado, graças aos trabalhos de restauração promovidos escrupulosamente, entre 1843 e 1861, pelo arquiteto de monumentos históricos Albert Lenoir, respeitando as disposições originais.
Hoje, o museu é prioritariamente voltado para a exposição de objetos relativos à Idade Média, mas abriga também alguns da Antiguidade, abrangendo mais de mil anos de história.
As coleções, que ocupam os dois andares dos edifícios, apresentam um vasto sortimento de objetos datando da Idade Média; tecidos, tapeçarias e bordados, manuscritos iluminados, ourivesaria, esmaltes, vitrais, cerâmicas, capitéis, esculturas, mobiliário laico e religioso, armas e até mesmos brinquedos e utensílios de cozinha.
Os mais antigos vitrais expostos em Cluny decoravam originalmente a Basilique Saint-Denis e datam de 1144; já os vitrais do século XIII apresentados pelo museu são provenientes, na sua maioria, da Saint-Chapelle e do Château de Rouen.

Vitral provavelmente do século XIII, proveniente da Sainte-Chapelle, em Paris, representando um cavaleiro degolando um rei. Museu Nacional da Idade Média, Rue Du Sommerard, 28, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
O Museu de Cluny possui uma bela coleção de artigos preciosos, como joias gaulesas, esmaltes de Limoges, cruzes ricamente trabalhadas, relicários magníficos e a delicada Rose d'or de Bâle (Rosa de Ouro da Basileia), a mais antiga conservada do seu gênero.
Desde o século XI, os papas encomendam a mestres ourives a confecção de rosas de ouro, símbolo da Virgem e da Jerusalém celestial; consagrada pelo papa na Domenica Laetare ("Domingo da Alegria", quarto domingo da quaresma), ela é então oferecida a uma igreja, a uma comunidade merecedora ou a um indivíduo como sinal de reconhecimento pelos serviços prestados à Igreja Católica Romana ou ao bem da sociedade.
Esse ornamento, um dos mais sagrados do papado medieval, é mencionado pela primeira vez em uma bula de Leão IX, datada de 1049; no entanto, o primeiro presente registrado data de 1096, segundo a crônica de São Martinho de Tours: uma rosa de ouro oferecida pelo papa Urbano II ao conde Fulque IV de Anjou; essa tradição substituiu a da oferta das chaves de São Pedro, que teve início no século VIII.
O estilo das rosas variou ao longo dos séculos; inicialmente bastante simples - uma única rosa de cerca de 15 cm -, tornou-se mais complexa, evoluindo para um buquê com caule ou vaso, por vezes representando vários quilos de ouro, ou mesmo incorporando pedras preciosas.

A Rose d'or de Bâle (Rosa de Ouro da Basileia); a mais antiga rosa que se conserva até hoje (a maioria foi fundida), foi criada pelo ourives Minucchio da Siena em 1330 e enviada ao conde de Neuchâtel pelo papa João XXII. Museu Nacional da Idade Média, Rue Du Sommerard, 28, Quartier Latin, Paris, sede da metrópole da Grande Paris, capital da Região de Île-de-France e capital da França.
No nosso próximo post, vamos conhecer o Quartier de l'Ópera e Montmartre, também em Paris.
Fontes:
Wikipedia
"Paris: tous les plus beaux monuments", Guides Voir, Hachette Tourisme, Paris, 2010.




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