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Milão - Parte VIII - Região da Lombardia - Norte da Itália - 2023

  • 20 de mar.
  • 19 min de leitura

Átrio em estilo românico da Basilica de Sant'Ambrogio, igreja cuja construção foi iniciada em 379. Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.


Milão - parte VIII


Saímos do Castello Sforzesco e atravessamos o Parco Sempione até alcançar a praça de mesmo nome, onde se encontra o grande arco do triunfo milanês.


O Arco della Pace, um dos monumentos mais famosos do neoclassicismo milanês, teve sua construção iniciada em 1807, com base em um projeto do arquiteto Luigi Cagnola; localizado na entrada da cidade, no Corso Sempione, que liga Milão à França, foi inspirado na arquitetura antiga e inicialmente concebido como uma homenagem aos feitos de Napoleão, na época, o senhor de Milão; no entanto, com a saída dos franceses do território em 1814, sua construção foi interrompida, sendo retomada pelos austríacos, que o dedicaram à paz em 1815, tendo alterado os motivos dos baixos-relevos inicialmente previstos, substituindo-os por outros que homenageavam os feitos do Império Austríaco (ver o Post Lago di Como - Villa Carlotta).


O arco foi inaugurado em 1838 com a presença do imperador austríaco Fernando I, quando de sua coroação como monarca do Reino Lombardo-Vêneto.


Mas, com a derrota dos austríacos, na batalha de Magenta, em 1859, pelas tropas franco-piemontesas, Milão foi ocupada pelos vencedores, e o arco marcou a entrada triunfal de Napoleão III e Vittorio Emanuele II.


Com isso, foram alteradas as inscrições superiores dedicatórias colocadas no topo do arco, passando a homenagear, a voltada para o Parque Sempione, Napoleão Bonaparte (Napoleão I), e a para a cidade, Napoleão III e Vittorio Emanuele II.




Arco della Pace, iniciado com base no projeto de Luigi Cagnola, em 1807, por iniciativa do Reino Napoleônico da Itália, mas inaugurado somente em 1838, durante a existência do Reino Lombardo-Vêneto, sob o domínio dos austríacos; fachada sul, voltada para o Parco Sempione, tendo a inscrição, em homenagem a Napoleão Bonaparte: "Às esperanças do Reino da Itália, sob os auspícios de Napoleão I, os milaneses dedicaram o ano de 1807, e foram libertados da servidão. Felizmente foram restituídas no ano 1859" (tradução livre do italiano). Piazza Sempione, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Arco della Pace, fachada norte, voltada para a cidade, com a inscrição em homenagem à entrada das tropas franco-piemontesas comandadas por Vittorio Emanuele II, então rei do Reino do Piemonte-Sardenha, futuro monarca do Reino da Itália, e por Napoleão III, imperador da França: "Entrando com armas gloriosas, Napoleão III e Vittorio Emanuele II, libertadores de Milão, apagaram exultantes desses mármores as marcas servis e ali escreveram a independência da Itália, 1859". Piazza Sempione, Milão, capital da Lombardia, Itália.


Na sequência, nos dirigimos à Chiesa di San Maurizio, passando por vários locais interessantes, apresentados a seguir.




Belo canteiro florido no Largo Antonio Greppi, tendo ao fundo um imponente edifício residencial histórico em estilo neoclássico de 1901, localizado na Via Rivoli, n. 2, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Edifício Piazza Castello, 27, estilo Liberty, local onde funciona a Fondazione Achille Castiglioni, cujo principal objetivo é preservar e tornar acessível o arquivo do arquiteto e designer Achille Castiglioni. Milão, capital da Lombardia, Itália.


No alinhamento da Torre del Filarete, do Castello Sforzesco, com a fonte existente na Piazza Castello vemos, em seguida, o Monumento a Giuseppe Garibaldi.


Localizado no Largo Cairoli, em Milão, o imponente monumento a Giuseppe Garibaldi, projetado por Ettore Ximenes, celebra o herói do Risorgimento a cavalo. A escultura de bronze é ladeada pelas alegorias da Insurreição e da Liberdade, símbolos de força e libertação. Na base, escudos comemoram as principais batalhas do Risorgimento. Inaugurado em 1895 com grande participação popular, o monumento representa uma importante homenagem à história italiana.




Monumento a Giuseppe Garibaldi, inaugurado em 1895, obra de Ettore Ximenes; nos escudos do pedestal, batalhas do Risorgimento; à esquerda, escultura em bronze representando a Insurreição, uma mulher com uma tocha na mão esquerda, apoiada sobre um leão, simbolizando a força do povo; à direita, a Liberdade, representada por uma mulher segurando uma espada, após ter ferido um tigre, símbolo da tirania. Largo Cairoli, Milão, capital da Lombardia, Itália.


Monumento a Giuseppe Garibaldi; a obra retrata o Herói dos Dois Mundos em trajes e boné militar, com a mão direita apoiada no punho de sua espada. Largo Cairoli, Milão, capital da Lombardia, Itália.


O Teatro Dal Verme é um teatro histórico milanês, construído em 1872 no local onde antes funcionava um circo-teatro. Importante palco de estreia para artistas como Puccini e Toscanini, também já sediou eventos esportivos e apresentações futuristas. Severamente danificado durante a Segunda Guerra Mundial, foi restaurado e hoje oferece uma programação diversificada que vai da música clássica e sinfônica ao jazz, além de sediar eventos culturais como o Festival "La Milanesiana". Atualmente, abriga a Fundação Pomeriggi Musicali e Itinerari Culturali.



Teatro Dal Verme, erguido por iniciativa do conde Francesco Dal Verme, com projeto do arquiteto italiano Giuseppe Pestagalli, foi inaugurado em 1872. Via San Giovanni sul Muro, 2, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Início do Corso Magenta, no momento em que passava o bonde Tram 19 Lambrate FS. Milão, capital da Lombardia, Itália.


Em seguida, visitamos a Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore.


É considerada a Capela Sistina de Milão, devido à sua estrutura arquitetônica e à alta qualidade de seu ciclo decorativo da escola de Leonardo da Vinci.


O edifício atual foi construído em 1503, sobre as ruínas de uma antiga igreja anexa ao mosteiro das beneditinas, este suprimido em 1798. Possui planta retangular com uma única nave, dividida por uma divisória em dois salões: um destinado à igreja pública (paroquianos comuns) e o outro, à do claustro (exclusivo das monjas). Uma rica decoração pictórica cobre quatro mil metros quadrados. É o exemplo mais completo de pintura do século XVI em Milão.


A história da igreja está intimamente ligada à história do Monastero Maggiore, ao qual estava anexada. O mosteiro, um convento de beneditinas, o mais importante da cidade de Milão, a ponto de ser chamado de "Maior", tem registros que remontam aos séculos VIII e IX. A primeira igreja monástica, e consequentemente o seu mosteiro, foi originalmente dedicada a Maria. A denominação de São Maurício data do século XI, e foi somente após o papa Eugênio III, a partir de 1148, que o mosteiro e a igreja receberam o nome do novo patrono.


Um importante período de renovação ocorreu no início do século XVI, e a igreja foi completamente reconstruída, adquirindo grande parte de sua aparência atual. Uma inscrição datada de 1628 marca o lançamento da pedra fundamental em 20 de maio de 1503.


A decoração pictórica, criada em diversas fases ao longo do século XVI, representa o exemplo mais completo de pintura do século XVI preservado em Milão. Entre os principais mecenas estavam Ippolita Sforza e seu marido, Alessandro Bentivoglio, figura importante na política milanesa da época, cuja filha, Bianca, tornou-se abadessa do mosteiro em 1522, adotando o nome de Irmã Alessandra. Os elegantes doadores, retratados ajoelhados e apresentados por santos nas lunetas do coro do salão da assembleia, provavelmente representam os dois mecenas.


O ciclo de afrescos decorativos permite admirar a evolução da pintura lombarda ao longo do século XVI, em grande parte executada por Bernardino Luini e sua oficina, Boltraffio (discípulo de Leonardo da Vinci), Vincenzo Foppa, os irmãos Campi e Simone Peterzano, mestre de Caravaggio.


Com a supressão das ordens monásticas em 1798 e a abertura da Via Ansperto (a partir de 1865) e da Via Luini (em 1867), a igreja ficou de alguma forma separada das estruturas do mosteiro, que, a partir daí, foram utilizadas, primeiro, como quartel, escola, delegacia de polícia e hospital militar, e depois se tornaram a sede do Museu Arqueológico de Milão, a partir de 1964-65.




Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore; sua construção foi iniciada em 1503, mas a fachada em pedra cinzenta de Ornavasso permaneceu inacabada na primeira fase operacional e foi concluída em 1574 por Francesco Pirovano, um engenheiro civil que já atuava em outras obras no mosteiro. Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.



A Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore é classificada como igreja dupla: possui um salão menor para fiéis e um salão para as monjas enclausuradas; ambas as salas, de nave única, são separadas por uma parede divisória. Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.




A parede divisória que separa os dois salões da igreja, tendo ao centro o altar do Salão dos Fiéis (Igreja Pública): no alto, à esquerda, o afresco "Martírio de São Maurício e da Legião Tebana"; ao centro, "Assunção da Virgem", e à direita, "São Sigismundo oferece a São Maurício o modelo da Igreja de Aguano", de Bernardino Luini; abaixo "Adoração dos Magos", de Antonio Campi, ladeado por lunetas com afrescos, representando os doadores rodeados por santos, provavelmente Alessandro Bentivoglio (à esquerda) e sua esposa Ippolita Sforza. Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.



Cappella della Resurrezione (Bergamina), de autoria de Giovan Pietro e Aurelio Luini, por volta de 1555. Salão dos Fiéis (Igreja Pública), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.



Cappella di S. Stefano (Carreto), com o afresco representando o "Martírio de São Estêvão", provavelmente de autoria de Evangelista Luini, por volta de 1550. Salão dos Fiéis (Igreja Pública), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Cappella di S. Stefano (Carreto), com o afresco representando a "Pregação de São Estêvão", provavelmente de autoria de Evangelista Luini, por volta de 1550. Salão dos Fiéis (Igreja Pública), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Cappella di S. Stefano (Carreto), com o afresco representando "Francesco Giovanni Giacomo Carreto em oração", provavelmente de autoria de Evangelista Luini, por volta de 1550; Carreto foi quem encomendou a decoração da capela. Salão dos Fiéis (Igreja Pública), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.



Cappella di San Giovanni Battista (Carreto), com o afresco representando o "Batismo de Cristo", de autoria de Evangelista Luini com Biagio e de Giuseppe Arcimboldi, em torno de 1545. Salão dos Fiéis (Igreja Pública), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.


No Salão das Monjas (Igreja do Claustro) encontram-se os afrescos que formam o Ciclo da Paixão de Cristo, pintados por Bernardino Luini e sua oficina, aí incluídos seus filhos.



Ponte-divisória voltada para o Salão das Monjas (Igreja do Claustro); dominada pelo crucifixo; abaixo, veem-se a luneta à esquerda, com o afresco "Cristo cai no caminho para o Calvário", e a luneta à direita, "Cristo jaz sobre a pedra da unção com os instrumentos da Paixão", obras de Bernardino Luini e oficina, século XVI. Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.



Sob a ponte-divisória veem-se diversos afrescos, tendo em destaque a luneta à esquerda, com o afresco "Cristo cai no caminho para o Calvário", e a luneta à direita, "Cristo jaz sobre a pedra da unção com os instrumentos da Paixão", obras de Bernardino Luini e oficina, século XVI. Salão das Monjas (Igreja do Claustro), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Crucifixo do Salão das Monjas (Igreja do Claustro). Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.  




A abóbada sob a ponte-divisoria é decorada com um fundo azul-escuro, pontilhado de estrelas douradas, representando os quatro evangelistas, anjos músicos e um medalhão com a bênção do Pai Eterno ao centro. A obra, ainda em estilo do final do século XV, é atribuída à oficina de Vincenzo Foppa e destaca-se pela delicadeza das figuras representadas, bem como pelas cores vibrantes. Salão das Monjas (Igreja do Claustro), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.




"Cristo cai no caminho para o Calvário", de Bernardino Luini e oficina, século XVI. Salão das Monjas (Igreja do Claustro), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.



"Cristo jaz sobre a pedra da unção com os instrumentos da Paixão", de Bernardino Luini e oficina, século XVI. Salão das Monjas (Igreja do Claustro), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Coro das Monjas; ao fundo, a parede contraposta à parede-divisória e, à direita, o órgão Antegnati. Salão das Monjas (Igreja do Claustro), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.




A "Última ceia", atribuída a Giovan Pietro e Evangelista Luini, filhos de Bernardino, século XVI. Salão das Monjas (Igreja do Claustro), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.



"Captura de Cristo pelos soldados romanos no Horto das Oliveiras", atribuída a Giovan Pietro e Evangelista Luini, filhos de Bernardino, século XVI. Salão das Monjas (Igreja do Claustro), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.




"Histórias da Arca de Noé", atribuída a Aurelio Luini, filho de Bernardino, século XVI. Salão das Monjas (Igreja do Claustro), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.



"Adão e Eva", atribuída a Aurelio Luini, filho de Bernardino, século XVI. Salão das Monjas (Igreja do Claustro), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.




O Órgão Antegnati; no centro do coro das freiras do Monastero di San Maurizio encontra-se um precioso órgão do século XVI, obra de Gian Giacomo Antegnati, com portas pintadas a têmpera por Francesco Medici da Seregno; o instrumento foi construído entre 1554 e 1557; trata-se de um órgão mecânico de 50 notas com um pedal de 20 notas, permanentemente conectado ao teclado. Salão das Monjas (Igreja do Claustro), Chiesa di San Maurizio al Monastero Maggiore, Corso Magenta, 13, Milão, capital da Lombardia, Itália.


Ao lado da Chiesa di San Maurizio encontra-se uma das sedes do Civico Museo Archeologico, instalado no que restou do antigo Monastero Maggiore.




Portal em estilo barroco do claustro do século XVII do antigo Monastero Maggiore, hoje o ingresso do Civico Museo Archeologico (Museu Arqueológico de Milão). Corso Magenta, 15,  Milão, capital da Lombardia, Itália.


O mosteiro fora construído sobre ruínas da cidade romana de Mediolanum, que podem ser vistas no interior do museu, como um trecho dos alicerces da muralha erguida no final do século III d.C, quando a cidade tornou-se a sede da corte do imperador Maximiliano (286 a 305 d.C.), ou seja, a capital do Império Romano do Ocidente.




Alicerces da muralha construída quando Milano tornou-se capital do Império Romano do Ocidente, no século III, no governo do imperador Maximiano. Civico Museo Archeologico, Corso Magenta, 15,  Milão, capital da Lombardia, Itália.


Saindo do Museu Arqueológico, nos dirigimos ao Complexo Monumental da Basilica di Sant'Ambrogio.


A basílica teve sua construção iniciada em 379, durante o governo de Ambrósio, bispo de Milão desde 374, passando a ser conhecida como Basilica Martirym (Basílica dos Mártires); mas o povo logo passou a denominá-la Basílica Ambrosiana.


O átrio e o campanário dos monges foram construídos no século IX; entre o final do século XI e início do século XII, a Basílica foi quase completamente reconstruída em estilo românico; em 1128, o arcebispo Anselmo V concedeu aos cônegos a construção de outro campanário, agora à esquerda da fachada; em 1431, Sigismundo de Luxemburgo, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, foi coroado, na Basílica, rei da Itália, ocasião em que concedeu ao templo o título de imperial; em 1631, o bispo Federico Borromeu promoveu a restauração do átrio, recuperando o modelo da arte românica.

Santo Ambrósio, nascido em uma comunidade hoje localizada na Alemanha, era de família de origem romana; estudioso na área jurídica e de família cristã, tornou-se governador das regiões italianas da Lombardia, Ligúria e Emília-Romagna; foi a Milão, em 374, para apaziguar disputas entre cristãos católicos ortodoxos e arianos, após a morte do bispo, de orientação ariana; na ocasião, ele conseguiu arrefecer os ânimos dos debatedores, evitando o perigo de tumultos; ocorre que o povo de Milão, maravilhado com o trabalho do governador, começou a gritar "Ambrósio Bispo!"; entendendo que aquilo era a vontade de Deus, tornou-se bispo de Milão naquele ano.


A partir daí, dedicou-se ao estudo dos Textos Sagrados e dos Padres da Igreja; aprendeu a pregar de tal maneira que a sua oratória encantou o jovem Agostinho de Hipona, depois Santo Agostinho, levando-o à conversão.


Durante o seu governo na Igreja milanesa, combateu o arianismo, que ele considerava heresia, por negar a natureza divina de Cristo; morreu no Sábado Santo de 397; foi reconhecido como grande Doutor da Igreja do Ocidente, em 1298, ao lado dos Santos Jerônimo, Agostinho e Gregório Magno.



Fachada do Complexo Monumental da Basilica di Sant'Ambrogio. Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.


O átrio românico da basílica ergue-se agora no mesmo local onde o anterior fora construído no século IX pelo Arcebispo Anspert.


O próprio átrio é composto por três lados, unidos ao grande nártex encostado à fachada da basílica, um espaço com pórtico onde se reuniam os fiéis que se preparavam para receber o batismo (catecúmenos) e os penitentes.


No início da Idade Média, a presença de duas comunidades religiosas em conflito, os cônegos e os monges, levou à construção de duas torres sineiras: a dos monges, à direita da fachada, que data dos séculos IX-X, e a dos cônegos, à esquerda, que foi construída em 1128 e aumentada em 1889 por Gaetano Landriani.



Átrio em estilo românico, tendo ao fundo o nártex, um grande pórtico onde se reuniam os catecúmenos e os peregrinos, à porta da Basílica; à esquerda, a torre sineira dos cônegos, construída no século XII e elevada em 1889; à direita, o campanário dos monges, erguido no século IX. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.


O portal principal, após a passagem do nártex, emoldurado por fragmentos de mármore reutilizados dos séculos IX e X e decorado na arquitrave com o Cordeiro Místico, símbolo de Cristo, preserva o programa iconográfico original, centrado nas Histórias do Rei Davi (folhas da porta de madeira) e atribuído ao próprio Ambrósio. O portal foi restaurado em 1750.




Portal principal da Basílica, construído com fragmentos de mármore dos séculos IX e X; vê-se, no centro da arquitrave, a representação em baixo-relevo do Cordeiro Místico, símbolo de Cristo. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Nave principal da Basilica di Sant'Ambrogio; veem-se, ao centro, o altar-mor, coberto pelo cibório, e, à esquerda, o púlpito (ambão) do século XII sobre o Sarcófago dito de Estilicão, do século IV. Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Presbitério da Basilica di Sant'Ambrogio. Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.


O cibório, uma cobertura sobre o altar sustentada por quatro colunas de pórfiro da Antiguidade Tardia, provavelmente data do período carolíngio; no final do século X, por ocasião de uma possível coroação real, foi decorado com elegante estuque policromado.




Cibório cobrindo o altar-mor, provavelmente do século IX; sua fachada ocidental, voltada para os fiéis, encontra-se um estuque policromado, possivelmente do século X, retratando a Traditio Legis, com Cristo entregando as chaves do céu a São Pedro e o rolo da lei a São Paulo. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Face meridional do Cibório, na qual se veem, no estuque policromado, duas figuras masculinas coroadas prostrando-se diante da figura de um bispo (talvez o próprio Santo Ambrósio). Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.


Uma obra-prima absoluta da arte carolíngia, o altar-mor da basílica é uma arca-relicário encomendada pelo Arcebispo de Milão, Angilberto II (824-859), para abrigar os corpos dos Santos Ambrósio, Protásio e Gervásio, "um tesouro mais precioso que qualquer metal", como declara a inscrição dedicatória gravada em nielo na fachada posterior. O altar consiste em um sarcófago de madeira coberto com painéis em relevo, adornados com placas de esmalte cloisonné, gemas, pérolas e corais. A frente dourada retrata cenas da Vida de Cristo, enquanto a frente prateada e dourada, voltada para a abside, retrata cenas da Vida de Ambrósio.




Altar Dourado, obra da oficina de Volvino, século IX; na frente anterior, voltada para os fiéis, estão representadas cenas da Vida de Cristo. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.


O mosaico da abside, alterado e restaurado desde a Antiguidade Tardia até o século XX, retrata Cristo Pantocrator abençoando, e os mártires Protásio e Gervásio coroados pelos arcanjos Miguel e Gabriel, respectivamente. Medalhões de Santa Marcelina e Santo Sátiro, irmã e irmão de Ambrósio, e de Santa Cândida, foram adicionados no século XI.


A aparência atual do mosaico resulta da reconstrução quase completa da abside após os bombardeios devastadores de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial.




Detalhe do mosaico em estilo bizantino, na cúpula da abside, provavelmente do período da Antiguidade Tardia, no qual estão retratados, à esquerda, São Protásio sendo coroado por São Miguel, tendo, à sua esquerda, a imagem do Cristo Pantocrator. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.


Na cripta sob a abside da basílica, vislumbramos a urna de cristal e prata que abriga as relíquias dos Santos Ambrósio, Protásio e Gervásio.

Santo Ambrósio, em 386, descobriu os corpos dos mártires e santos Protásio e Gervásio nas proximidades da antiga igreja dos Santos Nabor e Félix; deu ordem, então, para que os restos mortais deles fossem colocados no túmulo revestido de mármore que tinha sido preparado para o próprio bispo de Milão, sob o altar da basílica; após a sua morte, em 397, Ambrósio foi sepultado ali, numa tumba à esquerda dos mártires.


Em 1864, o pároco Francesco Maria Rossi encontrou um sarcófago de pórfiro, apoiado sobre dois túmulos vazios, lado a lado e revestidos de mármores preciosos, sendo o maior deles onde se encontravam, anteriormente, os ossos dos mártires e o menor, os de Santo Ambrósio.


O sarcófago de pórfiro, para o qual as relíquias dos santos haviam sido transferidas no século IX por determinação do bispo Angilberto II, foi aberto em 8 de agosto de 1871: nele foram achados os restos mortais dos três santos, lado a lado, imersos em água e bem preservados.


Em 1897, com a contribuição das principais famílias milanesas, cujos brasões em esmalte se destacam na borda, foi criada uma nova urna em cristal e prata repuxada, desenhada por Ippolito Marchetti, onde os corpos dos santos estão expostos até hoje, na cripta existente sob a zona absidal da basílica.




Cripta absidal da Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Urna em cristal e prata repuxada contendo os restos mortais dos Santos Ambrósio, Protásio e Gervásio, obra de Giovanni Lomazzi com base em projeto de Ippolito Marchetti, localizada exatamente embaixo do Altar Dourado; o corpo de Ambrósio, ao centro, está revestido com os paramentos pontificais; ao lado, os dois mártires, em dalmáticas vermelhas, coroas douradas e ramos de palmeira (palmas), símbolos do martírio. Cripta absidal da Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Capela do Sagrado Coração de Jesus; dedicada no Renascimento aos Santos Bento e Bernardo, a capela foi renovada em estilo barroco ao final do século XVII; sobre o altar, imagem em mármore do Sagrado Coração de Jesus, obra de Ludovico Pogliaghi, provavelmente do início do século XX. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Estátua do Beato papa Pio IX (Giovanni Maria Mastai-Ferretti), obra do escultor Confaloniere de 1880. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Quadro "Ambrósio detém Teodósio à porta da Basílica", óleo sobre tela, obra de Camillo Procaccini, provavelmente do final do século XVI ou do início do século XVII; o retábulo, doado à basílica ambrosiana por um devoto em 1866, retrata o bispo Ambrósio no ato de repelir o imperador Teodósio da igreja, em razão de este ter sido responsável pelo massacre de Tessalônica em 390. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.


Entre os poucos testemunhos sobreviventes da basílica construída por Ambrósio, o "Sarcófago dito de Estilicão" (século IV) ainda se encontra em sua posição original. Acredita-se ser o local de sepultamento do general romano Flavio Estilicão (†408) e de sua esposa Serena, embora isso provavelmente não seja verdade, haja vista que o militar faleceu no início do século V.


No século XII, o sarcófago foi incorporado ao ambão (púlpito) românico, de onde o leitor proclamava a palavra de Deus durante as celebrações. Parcialmente destruído pelo desabamento da ponte em 1194 (ou 1196), o púlpito foi restaurado pelo supervisor Guglielmo de Pomo no início do século XIII.




Fachada meridional do púlpito; as colunas do púlpito são ricamente decoradas com relevos que datam dos séculos XI e XII, representando figuras humanas e animais, ornamentos geométricos e elementos vegetais; sob o pórtico, vê-se o "Sarcófago dito de Estilicão", excepcionalmente esculpido em todos os lados, bem como na tampa e nos frontões. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Fachada ocidental do púlpito, na qual se vê, no centro, um anjo esculpido de asas abertas, e, acima, à direita, uma inscrição fazendo referência à restauração promovida por Guglielmo de Pomo, no início do século XIII, após o desabamento da ponte em 1194 (ou 1196). Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.



O púlpito (ambão) é decorado com animais simbólicos e figuras humanas que sustentam as estruturas arquitetônicas (telâmons); na parte superior, sob o atril, encontram-se dois relevos em cobre representando São João Evangelista e a Águia. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.




A fachada meridional do sarcófago (Estilicão), voltada para a nave principal, é ocupada pela representação de Cristo ensinando entre os apóstolos; Jesus, imberbe, sentado num trono, segura um manuscrito na mão esquerda, enquanto a mão direita está erguida no gesto de um orador. Ao seu redor estão os discípulos em dois grupos de seis (cada um segurando um rolo), enquanto a seus pés está esculpido o símbolo cristológico do cordeiro entre as figuras em menor escala dos doadores (um homem e uma mulher), ajoelhados e com as mãos cobertas por um véu. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Na fachada oriental do sarcófago, da esquerda para direita, podem ser reconhecidos alguns episódios do Antigo Testamento: o pecado original de Adão e Eva, a ascensão do profeta Elias ao céu numa carruagem, Noé na arca, Moisés recebendo as tábuas da lei; acima, uma das representações mais antigas da Natividade, com o menino Jesus envolto em faixas, colocado na manjedoura e vigiado pelo boi e pelo burro. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.




Na fachada ocidental do sarcófago, da esquerda para direita, veem-se o sacrifício de Isaac e quatro figuras vestidas com togas. Basilica di Sant'Ambrogio, Piazza Sant'Ambrogio, 15, Milão, capital da Lombardia, Itália.


Saindo do complexo, cruzamos o bairro mais antigo da cidade.


O traçado urbano das Cinque Vie, o bairro mais antigo da cidade, formado pelas Via Santa Marta, Via del Bollo, Via Bocchetto, Via Santa Maria Fulcorina e Via Santa Maria Podone, remonta à época romana e se desenvolveu próximo ao que outrora foi o Fórum de Mediolanum; o formato peculiar de "estrela" do cruzamento pode ser devido ao desvio de um antigo riacho, o Nirone, que obrigou a modificação do percurso original.


Desde os tempos romanos e a Idade Média, as Cinque Vie têm sido um centro de comércio e oficinas. Hoje, essa tradição continua graças à presença de galerias de arte, lojas de antiguidades, estúdios de artistas, ateliês e boutiques de design.


Protegido da agitação da Via Torino e cercado por ruas históricas como a Via Meravigli, a Via Cappuccio e a Via Orefici, o bairro oferece recantos incrivelmente tranquilos. Caminhar entre a Via Santa Marta e a Via San Maurilio é como voltar no tempo para a Milão do século XIX, longe do caos da cidade.




Via San Maurilio, na altura do n. 20, que faz parte do bairro mais antigo de Milão, as Cinque Vie; à esquerda, o Palazzo Greppi, construído entre os séculos XVI e XVII, projeto dos arquitetos Galeazzo Alessi e Pellegrino Tibaldi, n. 19. Milão, capital da Lombardia, Itália. 


No próximo post, vamos visitar os rastros de Mussolini e do fascismo em Milão.


Fontes:


Wikipedia;


Guide: Fabuleuse Italie du Nord: Rome, Florence, Venise, pesquisa e redação de Louise Gaboury, direção de Claude Morneau, versão eletrônica, 2019, Guides de Voyage Ulysse, Québec, Canada.






Decorazione+e+musica+nella+chiesa+di+San+Maurizio+al+Monastero+Maggiore+di+Milano.pdf, de Mariarosa Bricchi



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