Milão - Parte IX - Mussolini, Socialismo e Fascismo - Região da Lombardia - Norte da Itália - 2023
- há 3 dias
- 19 min de leitura

Aqui nasceu o fascismo: Palazzo Castani, estrutura do século XV, mas com a fachada quase totalmente refeita no século XVII; o portal, à esquerda, é o único sobrevivente da fachada anterior. Piazza San Sepolcro, 9, Milão, capital da Lombardia, Itália.
Milão - Parte IX
Há uma relação direta entre Milão, socialismo, nacionalismo, futurismo, fascismo e Benito Mussolini.
Benito Mussolini, filho de pai anarquista, a partir dos 19 anos passou a ser um radical ativista sindical, tornando-se oficialmente socialista em 1910; mas não foi um socialista qualquer; ele ascendeu rapidamente no interior do partido, tornando-se o líder da seção socialista de Forlì.
Em 9 de outubro de 1911, o jornal Avanti!, órgão do Partido Socialista, mudou-se de Roma para Milão, para a então Via San Damiano, 16. Era então dirigido por Claudio Treves.

Local onde ficava localizada a sede do jornal socialista Avanti!, na esquina da então Via San Damiano, 16, com a Via Chiossetto, Milão, capital da Lombardia, Itália.
Em 1º de dezembro de 1912, Mussolini, por conta de seu desempenho político-sindical agressivo e de suas qualidades como orador brilhante, assumiu a direção editorial do Avanti! e mudou-se para Milão, onde logo foi acompanhado por sua companheira Rachele e a filha do casal; no início de 1913, a família se estabeleceu na Via Castel Morrone, número 18.
Quando do início da I Guerra Mundial, em 1914, vigorava um tratado de aliança militar defensiva entre o Reino da Itália, a Áustria-Hungria e o Império Alemão desde 1892, conhecido como Tríplice Aliança.
Os nacionalistas italianos, dentre eles o grande romancista, poeta e dramaturgo Gabriele D'Annunzio, o mais prestigiado e um dos mais populares artistas da época, defendiam o rompimento do tratado e a entrada da Itália na guerra, ao lado da Inglaterra e da França; a maior razão era exatamente recuperar territórios que, na visão deles, faziam parte da nação italiana histórica e se encontravam sob o poder do Império Austro-Húngaro, como os localizados no Tirol do Sul (Alto Adige), onde ficavam as cidades de Trento, Bolzano e Merano, em Friulli, onde estavam Gorizia e Udine, e em Veneza Júlia, onde se localizavam Trieste, Gorizia, Pola e Fiume, um movimento conhecido como Irredentismo Italiano (oriundo da expressão terre irredente, ou seja, terras não resgatadas) - ver post "Lago di Garda - Gardone Riviera e Il Vittoriale degli Italiani".
Os socialistas e a grande parte das agremiações partidárias de esquerda da Itália, por orientação do então Partido Comunista Russo - Bolchevique (que, na época, se opunha ferrenhamente à entrada na guerra da Rússia Czarista a favor dos ingleses e franceses), do qual eram verdadeiros satélites, parceiros na "Luta de Classes" (internacionalismo proletário), eram contrárias a intervenção da Itália no embate bélico.
Mussolini, inicialmente, apoiou firmemente a linha não intervencionista da Internacional Socialista, acreditando que o conflito não poderia beneficiar os interesses dos proletários italianos, mas, talvez influenciado pelas posições do seu pai, que, além de anarquista, paradoxalmente defendia ideias nacionalistas, ou por cálculo político, aproximando-se de Margherita Sarfatti, sua amante e uma das mecenas do grupo artístico futurista, e Gabriele D'Annunzio, mudou radicalmente seu discurso, declarando publicamente seu apoio à guerra, apelando para a necessidade dos socialistas de derrubar as monarquias Hohenzollern e Habsburgo na Alemanha e Áustria-Hungria, respectivamente, que, segundo ele, constantemente reprimiam o socialismo.
"É muito inteligente, astuto, comedido, reflexivo, conhece bem os homens, suas qualidades e defeitos.
"(....)
"É corajoso e audaz; é organizado, capaz de tomar decisões rápidas; mas não é igualmente tenaz em suas convicções e seus propósitos.
"É ambicioso. É movido pela convicção de que representa uma força considerável no destino da Itália e está decidido a reforçá-la. É um homem que não se conforma com posições secundárias. Que ter a primazia e dominar.
"No socialismo oficial, ascendeu rapidamente de origens obscuras a uma posição eminente. Antes da guerra, foi o diretor ideológico do Avanti!, o jornal que guia todos os socialistas. Naquela competência, foi muito apreciado e amado. Alguns de seus antigos companheiros confessam ainda hoje que ninguém soube compreender e interpretar como ele a alma do proletariado, o qual viu com dor sua traição (apostasia) quando, em poucas semanas, se transformou de apóstolo sincero e apaixonado pela intervenção bélica" (pp. 33-34. SCURATI, Antônio. M – O filho do século. Tradução de Marcello Lino. Rio de Janeiro: Intrínseca, 1ª edição. Edição digital: 2019) - g.n..
Após ter publicado o artigo "Da neutralidade absoluta à neutralidade ativa e operativa" no Avanti! de 18 de outubro de 1914, com o qual começou a expressar ideias intervencionistas, Mussolini deixou, em 26 de outubro, a direção do Avanti! e foi expulso do Partido Socialista, em 24 de novembro de 1914.
"(...) Atrás, tenho o dia 24 de novembro de 1914. O dia da minha expulsão do Partido Socialista, a sala da Sociedade Humanitária onde amaldiçoaram meu nome, os operários para quem até o dia anterior eu era o ídolo derrubando-se uns aos outros para ter a honra de me esmurrar. Agora, recebo todos os dias seus votos de morte. É o que desejam a mim, a D'Annunzio, a Marinetti (...)." (pp. 29-30. SCURATI, 2019) - g.n.
Mas, Benito Mussolini, um homem de ação e manipulação, não ficou inerte um segundo e contra-atacou, fundando em 15 de novembro de 1914, antes mesmo de sua expulsão formal do partido, Il Popolo d'Italia, um jornal político italiano para dar voz à ala intervencionista do Partido Socialista Italiano; sua primeira sede era localizada na Via Paolo da Cannobio, 35, local que o próprio Mussolini chamava de "Covo" (Caverna).
"Também é impossível estabelecer quanto de suas convicções socialistas, nunca renegadas publicamente, se perderam nas transações financeiras indispensáveis à continuação da luta por meio do Il Popolo d'Italia, o novo jornal que fundou, no contato com homens e correntes de outra fé, em conflito com os antigos companheiros, sob a pressão constante do ódio indomável, da animosidade ácida, das acusações, dos insultos, das calúnias incessantes por parte de seus antigos seguidores. Mas, caso essas alterações secretas tenham se verificado, engolidas na sombra das coisas mais próximas, Mussolini nunca deixará isso transparecer, e sempre desejará parecer - e talvez sempre se iluda em ser - socialista". (p. 35. SCURATI, 2019) - g.n..

Local onde funcionava inicialmente o jornal Il Popolo d'Italia, fundado por Benito Mussolini em 1914; hoje se vê um prédio de fachada branca, à direita, na Via Paolo da Cannobio, 35; ao fundo a torre da Chiesa di San Gottardo in Corte, que faz parte do complexo do Palazzo Reale di Milano. Milão, capital da Lombardia, Itália.

Placa da Via Paolo da Cannobio, Milão, capital da Lombardia, Itália.
Em 31 de março de 1915, ocorreram em Milão duas grandes manifestações opostas: uma socialista contra a guerra e outra irredentista liderada por Mussolini.
Em 4 de maio de 1915, a Itália rompeu o tratado com o Império Austro-Húngaro.
Em 27 de agosto de 1915, a Itália declarou guerra à Alemanha.
Mas Mussolini não parou por aí, satisfeito apenas em ver sua posição intervencionista vitoriosa; queria mais, voltar a seu lugar de grande líder, mas de um grupo com uma nova ideologia e de muita ação.
Foi quando uma reformulação da estrutura do Regio Esercito (Exército Real Italiano), ainda durante o curso da guerra, lhe deu a oportunidade de ouro para tornar realidade seu plano.
No verão de 1917, uma nova especialidade de infantaria nasceu dentro do Segundo Exército do Regio Esercito: as unidades de assalto; seus integrantes eram conhecidos como Arditi (os mais ousados), talvez os primeiros combatentes, na guerra moderna, que poderiam ser chamados de "forças especiais".
Arditi não eram unidades que se encontravam subordinadas às divisões de infantaria; eram consideradas unidades de combate separadas, para cumprimento de missões especiais, normalmente muito arriscadas; foram muito bem sucedidas ao trazer um certo grau de movimento para o que tinha sido anteriormente uma guerra de posições entrincheiradas; suas façanhas no campo de batalha foram exemplares e ganharam um lugar ilustre na história militar italiana.
"A feroz epopeia do arditismo iniciara-se com as chamadas 'Companhias da Morte', divisões especiais de engenheiros responsáveis pela preparação do terreno para o ataque da infantaria de trincheira. À noite, cortavam as grades e deflagravam minas não detonadas. De dia, avançavam arrastando-se, protegidos por couraças absolutamente inúteis, desmembrados pelos disparos de bombarda. Em seguida, cada armada - infantaria, bersaglieri, alpina - começou a formar as próprias esquadras de atacantes, escolhendo entre os soldados mais experientes e corajosos das companhias os que seriam capacitados em lançamento de granadas, manuseio de lança-chamas e metralhadora. Mas foi o treinamento com punhal, arma latina por excelência, que fez a diferença. Ali começou a lenda.
"Em uma guerra que aniquilara a concepção do soldado como agressor, na qual eram os gases abrasivos e as toneladas de aço disparadas de locais remotos que os faziam explodir imóveis nas trincheiras, em um massacre tecnológico decorrente da superioridade do fogo defensivo em relação à mobilidade do soldado lançado no ataque, os Arditi trouxeram de volta a intimidade do combate corpo a corpo, o choque causado pelo contato físico, a convulsão do morto transmitida pela vibração da lâmina ao punho do matador. (...) Naquela guerra de ovelhas prontas para o abate, eles trouxeram de volta a confiança em si mesmos que só é obtida através da maestria em esquartejar um homem com uma arma de corte de lâmina curta. Sob o céu das tempestades de aço, entre a morte anônima em massa e o massacre como produto industrial em larga escala, eles trouxeram de volta a individualidade levada a limites extremos, o culto heroico dos guerreiros antigos e aquele terror especial que só pode ser transmitido pelo esfaqueador que vai pessoalmente até a toca em que a pessoa está escondida para matá-la com as próprias mãos." (pp. 49-52. SCURATI, 2019) - g.n..

Distintivo dos Arditi das Unidades de Assalto da Primeira Guerra Mundial (1915-1918). Fonte: https://www.arditigrandeguerra.it/chi-erano-gli-arditi/#uniforme.
Os Arditi eram, geralmente, combatentes de grande coragem, pareciam não ter medo, riam do perigo e levavam terror ao inimigo.
"A parte sanguinária da mesa, contudo, está à frente de Mussolini. Ali está sentando um indivíduo baixo, atarracado, o pescoço taurino dá a impressão de que a cabeça se encaixa diretamente ao tronco. (...) Além da pose, sua roupa também é teatral: embaixo do paletó militar verde-acinzentado, veste um suéter preto de gola alta com um bordado no centro, um crânio branco com um punhal entre os dentes. Do cinturão que segura as calças, pende outro punhal, verdadeiro, com empunhadura de madrepérola.
"Chama-se Albino Volpi, 30 anos, marceneiro, várias vezes acusado de delitos comuns, alistado nos Arditi, condenado pelos tribunais ordinários por desacato a funcionário público, furto, arrombamento, lesões com agravantes, e pelo tribunal militar por deserção. (...) Diz-se que, durante a guerra, possuído pela violência, saía à noite por conta própria, engatinhando desde a última trincheira até o fosso dos inimigos, no mais absoluto silêncio. Armado apenas com um punhal e, pelo simples prazer de ouvir o murmúrio sibilante do sangue arterial em contato com o ar, degolava a sentinela adormecida. Há boatos de que tinha um jeito único de empunhar a faca... Certamente foi um dos 'jacarés do Piave', os invasores especializados em atravessar o rio à noite para assassinar as sentinelas na margem sob o domínio dos austríacos. Nus, com o corpo lambuzado de argila cinza para se camuflar com a vegetação ribeirinha, atravessavam a nado a corrente das gélidas cheias de outubro, levando uma pequena morte feroz ao campo inimigo. Não ajudavam em quase nada, nem no plano tático nem no estratégico, porém os jacarés do Piave foram indispensáveis para vencer a guerra". (pp. 58-60. SCURATI, 2019) - g.n..

Bandeira dos Arditi da Primeira Guerra Mundial - literalmente, faca na boca. Fonte: https://www.reddit.com/r/vexillology/comments/1ac3hfa/arditi_flag_from_wwi/?tl=pt-br
Porém, o alto comando do exército observou que, por suas ideias ultranacionalistas, os integrantes dessas unidades especiais, na época, eram muito suscetíveis à politização, o que causou uma grande preocupação na força, levando à decretação da dissolução delas nos primeiros meses de 1919, se estendendo a desmobilização até 1920.
Ocorre que isso foi motivo de muita frustração e revolta para os ex-Arditi, que, após terem feito um grande sacrifício pessoal, muitas vezes arriscando sua incolumidade física e a vida para defender a pátria e os demais italianos (muitos que ficaram confortavelmente em suas casas, relativamente protegidos), foram praticamente expulsos de forma humilhante das forças armadas sem nem uma recompensa moral e financeira digna.
"O homem que sai do hospital militar da Via dei Mille manca um pouco. Seu andar capenga parece desequilibrado por causa do braço esquerdo enfaixado, pendurado ao pescoço grosso. Veste um paletó aberto dos Arditi, com fendas laterais concebidas para extrair mais rapidamente as bombas e divisas pretas no colarinho. No braço esquerdo, escondido pelas ataduras, há um escudo em que se destaca um gládio romano cuja empunhadura tem o formato de uma cabeça de esfinge. Já o punhal real, que pende da cintura, está bem à vista. Seu corpo atarracado e pesado, fora de eixo por causa das enfermidades, ocupa toda a calçada do lado da ferrovia. Os transeuntes que cruzam com ele na Via dei Mille desviam. Alguns chegam a atravessar a rua para mudar de calçada.
"No hospital militar, todos os veteranos dos batalhões de assalto repetem a mesma ladainha furibunda: é uma vergonha, receberem baixa de qualquer jeito, como uma empregada que é demitida. Primeiro os generais os humilharam fazendo-os marchar por meses a fio com a guerra terminada, debaixo de chuva e no meio da lama, para impor um pouco daquela disciplina à qual ninguém jamais ousara submetê-los quando serviam para tomar de assalto as trincheiras inimigas; depois, os políticos os humilharam ao dar-lhes baixa à noite, em silêncio. 'Para não provocar', foi a explicação. E quem não deveria ser provocado? Os refratários, os derrotistas, os socialistas que desmoralizaram as tropas (...) E para contentar essa ralé, eles foram liberados assim, na sombra, sem um cântico, sem uma flor, sem a estrada cheia de bandeiras. Os heróis voltaram à vida civil furtivos como ladrões na casa do Senhor". (pp. 71-74. SCURATI, 2019) - g.n..
Por conta disso, alguns ex-integrantes dessas tropas especiais resolveram criar uma associação visando a fornecer assistência aos Arditi desmobilizados por meio de reivindicações no estilo corporativo. De fato, seu estatuto declarava no Artigo 2: "A Associação não tem propósito político". Apesar disso, violou os regulamentos do exército ao contatar, sem autorização, soldados em serviço, mas as autoridades intervieram de forma tão branda que, na prática, deram sua aprovação.
A Associação dos Arditi da Itália foi, de fato, fundada em Roma por Mario Carli em 1º de janeiro de 1919; poucos dias depois, em 19 de janeiro, Ferruccio Vecchi (capitão dos Arditi e futurista) estabeleceu a seção milanesa da Associazione Arditi (Associação dos Arditi), que teve como sede da primeira reunião a casa de Filippo Tommaso Marinetti, fundador e líder dos futuristas (em 1909, tinha fundado a primeira vanguarda histórica do Novecento italiano).
Na sequência, a associação passou a ocupar, em Milão, um prédio na Via Cerva, 23.

Uma das possíveis sedes da Associazione Arditi di Milano, localizada na Via Cerva, 23, Milão, capital da Lombardia, Itália.

Placa da Via Cerva, Milão, capital da Lombardia, Itália.
Os Arditi eram, acima de tudo, firmemente antissocialistas; para eles, a posição não intervencionista dos esquerdistas italianos em relação à I Guerra Mundial era um indicativo de que eles não eram verdadeiros patriotas; ademais, os viam apenas como simples "lacaios" da Internacional Socialista (traduza-se Partido Comunista Russo), e a interferência externa nas questões internas da Itália era uma prova da subserviência a interesses estrangeiros, uma posição substancialmente oposta aos sentimentos nacionalistas.
Na Milão tensa e preocupada dos primeiros meses de desmobilização, a Associação Arditi rapidamente alcançou certa consistência e notoriedade, em contato próximo não só com os futuristas, mas também com Mussolini e as forças mais inquietas da frente patriótica.
Nesse momento é que o senso de oportunidade e a capacidade de manipulação de Mussolini entraram em ação; observando a grande insatisfação dos Arditi e de outros grupos da sociedade (empresários e proprietários de terra assustados com a liberdade de organização e de ação dos sindicalistas, socialistas e outras agremiações de esquerda) com os rumos tomados pelo governo de plantão italiano, resolveu juntá-los em uma nova agremiação política, mas também de feição paramilitar.
"Benito Mussolini, após ser expulso do Partido Socialista, ao perder as armadas do proletariado, recrutou-os logo, instintivamente. Em 10 de novembro de 1918, no dia da comemoração da vitória, após o discurso do deputado Agnelli no Monumento aos Cinco Dias de Milão, o diretor do Il Popolo d'Italia instalou-se em meio aos Arditi no caminhão que desfraldava a bandeira preta com o crânio. No Caffè Borsa, erguendo os cálices de espumante, brindou a eles dentre os milhões de combatentes.
"'Companheiros de armas! Eu os defendi quando o covarde os difamava. Sinto algo de mim nos senhores e talvez os senhores se reconheçam em mim.'
"(...) Mussolini, odiado e odiador profissional, sabia que o rancor deles se acumulava, que logo seriam veteranos descontentes com tudo. Sabia que, à noite, sob as tendas, xingavam os políticos, os Altos Comandos, os socialistas, os burgueses." (pp. 52-54. SCURATI, 2019) - g.n..
Assim, em 23 de março de 1919, na sede do Circolo dell’Alleanza degli interessi industriali, commerciali ed agricoli - Associazione Commercianti ed Esercenti -(Círculo da Aliança Comercial e Industrial), então localizada no Palazzo Castani, na Piazza San Sepolcro, 9, foi fundado, numa reunião presidida por Ferruccio Vecchi, capitão dos Arditi, com a presença de Benito Mussolini, o Fascio di Combattimento di Milano, o qual Mussolini chamou de "Fascio" Primordial, o embrião do organismo fascista italiano.

Palazzo Castani, estrutura do século XV, mas com a fachada quase totalmente refeita no século XVII; o portal, à esquerda, é o único sobrevivente da fachada anterior; no início do século XX, no palácio, funcionava a sede do Circolo dell’Alleanza degli interessi industriali, commerciali ed agricoli (Círculo da Aliança Comercial e Industrial), local onde, em 23 de março de 1919, foi fundado, numa reunião presidida por Ferruccio Vecchi, ex-capitão dos Arditi, com a presença de Benito Mussolini, o Fascio di Combattimento di Milano. Piazza San Sepolcro, 9, Milão, capital da Lombardia, Itália.
Entre 1921 e 1943, o Palazzo Castani tornou-se a sede do Partido Nacional Fascista de Milão e, durante a ocupação alemã entre 1943 e 1945, a sede do Partido Republicano Fascista.
A Federação Fascista confiou ao arquiteto Piero Portaluppi (1888-1967) a renovação do Palazzo Castani , incluindo, entre outras coisas, a reabertura das galerias do primeiro andar do pátio Bramante, anteriormente muradas, e a substituição de várias colunas.
Ademais, no entorno, foram demolidos prédios antigos, tendo sido erguida, na década de 1930, à esquerda da fachada principal do Palazzo Castani, a Torre Littoria, de arquitetura fascista, obra também do arquiteto Portaluppi.
O palácio hoje hospeda o Commissariato Centro della Polizia di Stato.

À esquerda do palácio, a Torre Littoria, obra do arquiteto Piero Portaluppi, da década de 1930, de arquitetura fascista; servia como símbolo de modernidade, poder e propaganda do regime. Piazza San Sepolcro, Milão, capital da Lombardia, Itália.
A Piazza San Sepolcro fica localizada na área, onde na época romana, o cardo e o decúmano se cruzavam, ou seja, as vias principais da Mediolanum, o nome de Milão no tempo romano, bem como o Fórum; ou seja, o umbigo da antiga cidade.
No seu entorno, temos, ainda, vários outros prédios de importância histórica.
A Casa Rabia Feltrinelli, um exemplo da residência da nova nobreza Sforza, final do século XV - início do século XVI, projeto do arquiteto Cristoforo Solari; a fachada não conserva mais seu aspecto original, em razão das reformas realizadas no século XIX.

Casa Rabia Feltrinelli, erguida entre o final do século XV e início do XVI, teve sua fachada muita modificada no século XIX. Piazza S. Sepolcro, 1, Milão, capital da Lombardia, Itália.
A Biblioteca Ambrosiana e a Pinacoteca Ambrosiana, erguidas por iniciativa do cardeal Federico Borromeo, a primeira construída de 1603 a 1607 pelos arquitetos Lelio Buzzi e Francesco Maria Richini, e a segunda, entre 1611 e 1618 (ou 1620), pelo arquiteto Fabio Mangone.

Fachada da Biblioteca Ambrosiana voltada para Piazza San Sepolcro; construída no início do século XVII, projeto dos arquitetos Lelio Buzzi e Francesco Maria Richini. Piazza Pio XI, 2, Milão, capital da Lombardia, Itália.
O Palazzo Marietti, originário do século XV, com evidentes características renascentistas, como um pórtico sustentado por colunas toscanas em seu pátio interno, o edifício passou por modificações significativas ao longo do século XIX, resultando em sua atual fachada neoclássica.

Fachada neoclássica do Palazzo Marietti, atualizada no século XIX, voltada para a Piazza San Sepolcro; o prédio foi construído no século XV, guardando suas características originais renascentistas no pátio interno. Via del Bollo, 2, Milão, capital da Lombardia, Itália.
A Chiesa di San Sepolcro, foi construída em 1030, quando um cunhador milanês chamado Rozzone a mandou erguer no antigo fórum romano, que o arcebispo Ariberto d'Intimiano solenemente consagrou à Santíssima Trindade.
Em 15 de julho de 1100, após a reconquista de Jerusalém, o então arcebispo de Milão, Anselmo IV da Bovisio, em memória desse evento extraordinário, mudou a dedicação para Igreja do Santo Sepulcro; o título foi motivado pela presença, em sua seção subterrânea desde a fundação, de uma réplica do túmulo de Cristo, na qual continha terra retirada de Jerusalém pelos cruzados e outras relíquias dos lugares sagrados.
Na segunda metade do século XVI, a igreja foi escolhida por São Carlos Borromeu como um local privilegiado de oração, iniciando uma complexa renovação do local de culto, que incluía a construção de um monte sagrado urbano, composto por vinte e quatro capelas dedicadas a cenas da Paixão; em razão de diversas circunstâncias, o projeto nunca foi concluído, embora alguns grupos tenham sido efetivamente criados e ainda sejam visíveis na igreja superior: o Lava-pés, Jesus perante Caifás, a Flagelação e a Negação de Pedro.
Ao longo dos séculos seguintes, a igreja sofreu diversas renovações e restaurações, que alteraram significativamente a sua aparência, tendo seu interior restado com características barrocas.
A fachada também foi reconstruída no final do século XIX em estilo românico, considerado mais condizente com o antigo edifício medieval.
Um átrio com duas capelas precede a nave principal, sustentada por colunas coríntias, ladeada por naves laterais e galerias acima. O transepto é encimado por uma lanterna quadrada e fechado por duas absides opostas.

Fachada da Chiesa di San Sepolcro, restaurada no século XIX no estilo românico (respeitando a original); erguida no século XI, sofreu muitas alterações ao longo dos séculos, com a parte interna apresentando o aspecto mais barroco. Piazza San Sepolcro, Milão, capital da Lombardia, Itália.

Nave principal da Chiesa di San Sepolcro; o interior, provavelmente reformado no século XVII ou XVIII, tem o estilo barroco. Piazza San Sepolcro, Milão, capital da Lombardia, Itália.

"O Lava-pés"; um dos grupos escultóricos que fariam parte do monte sagrado urbano projetado por São Carlos Borromeu, mas não concluído. Chiesa di San Sepolcro, Piazza San Sepolcro, Milão, capital da Lombardia, Itália.

"Jesus perante Caifás"; um dos grupos escultóricos que fariam parte do monte sagrado urbano projetado por São Carlos Borromeu, mas não concluído. Chiesa di San Sepolcro, Piazza San Sepolcro, Milão, capital da Lombardia, Itália.

"Lamento sobre o Cristo Morto"; Madalena, São João Evangelista, a Virgem Maria, mulheres piedosas, Nicodemos, José de Arimateia, uma mulher com uma criança nos braços e o Cristo Morto; peças atribuídas a Agostino Fonduti, início do século XVI. Chiesa di San Sepolcro, Piazza San Sepolcro, Milão, capital da Lombardia, Itália.

Placa da Piazza San Sepolcro, Milão, capital da Lombardia, Itália.
Greve geral convocada pelos socialistas; dia 15 de abril de 2019, uma coluna de socialistas encontra outra formada por fascistas na Via dei Mercanti; assim começa o primeiro conflito físico entra as duas facções inimigas de Milão que vai resultar no ataque e destruição por esquadrões fascistas das instalações do Avanti!, o jornal diário do Partido Socialista fundado em 1896, transferido para Milão em 1911 e dirigido, ironicamente, por Mussolini de 1912 a 1914.
"Por um instante, as duas facções se defrontam de cada lado do cordão de carabineiros que bloqueou a saída da Via dei Mercanti. À frente da coluna socialista seguem mais uma vez as mulheres, levando no alto o retrato de Lênin e a bandeira vermelha (...) À frente do outro cortejo, muito menos numeroso, estão homens que, nos últimos quatro anos, conviveram todos os dias com a matança. A desproporção é grotesca. É a relação diferente que os dois grupos têm com a morte o que cava um abismo entre eles.
"O cordão de carabineiros se abre. Do lado da Piazza del Duomo, os oficiais fardados e os Arditi avançam em desordem, revólveres em punho, como se não fosse nada. A verdadeira batalha dura cerca de um minuto.
"Do lado dos socialistas, aos milhares, voam pedras, alguns porretes. Do lado dos oficiais, Arditi e futuristas, centenas deles, disparos de revólver. Tiros para cima e contra a coluna socialista. Esta resiste por alguns instantes, atordoada, muda. Naquele brevíssimo intervalo, ninguém canta mais. Mulheres e homens contemplam perplexos aqueles monstros uniformizados diante deles. Os Arditi irrompem como atores inesperados em um palco que não cogitava sua presença.
"(...)
"(...) Enquanto os espancam, oficiais e Arditi os ridicularizam: 'Quero ver gritar 'Viva Lênin!.'
"(...)
"Derrotado o inimigo, deve-se incendiar sua casa. E a dos socialistas é o jornal que publicam. A sede milanesa do Avanti!, bandeira do socialismo italiano, fica na Via San Damiano, ainda atravessada por um canal. Quando, ao cair da noite, os agressores chegam, encontram-na defendida por um cordão de militares fardados. A oposição é branda: muitos dos manifestantes foram seus comandantes na guerra. A defesa logo se transforma em cerco.
"De súbito, um tiro que, com certeza quase absoluta, foi disparado pelos socialistas no edifício, de um fuzil plausivelmente armado pelo terror, abate um dos militares em guarda. (...) Um pequeno corredor se abre no ponto em que passa a maca com a vítima. Os homens prontos para o ataque passam por ali.
"Há ainda alguns disparos de fuzil do interior do edifício, mas, em seguida, as janelas são escaladas por Arditi, que usam as grades baixas do térreo como degraus. Uma vez lá dentro, não encontram ninguém defendendo o lugar. Todos os socialistas fugiram pela porta dos fundos. Começa a pilhagem. Metódica, competente, sem resistência.
"Quebram tudo. Borrifam líquidos inflamáveis em cada aposento, esvaziam latas sobre os volumes encadernados, viram as escrivaninhas de cabeça para baixo (...).
"Meia hora mais tarde, todo o edifício está em chamas (...)". (pp. 91-101. SCURATI, 2019) - g.n..
Na época, o Avanti! tinha três escritórios (Milão, Roma e Turim) e era o único jornal diário com circulação nacional. Foi atacado por fascistas mais quatro vezes, resultando em mortos e feridos; em 1925, sofreu 62 apreensões. Em 1926, foi obrigado a fechar devido à repressão à liberdade de imprensa.

Na esquina com a Via Chiossetto, no que era então o número 16 da Via San Damiano, ficava o Avanti!, o jornal diário do Partido Socialista fundado em 1896; esquadrões fascistas atacaram e destruíram o jornal em 15 de abril de 1919; seu líder era Mussolini, que também havia sido diretor do jornal de 1912 a 1914. Milão, capital da Lombardia, Itália.
No verão de 1919, Mussolini e sua família mudaram-se da Via Castel Morrone, 18, para um apartamento no Foro Buonaparte, 38 (também conhecido como Foro Bonaparte), um lugar mais elegante; porém, não foi deixado em paz por seus antigos parceiros socialistas, que, muitas vezes, iam ao local para proferir impropérios e ameaças.
"Confessou apenas à mulher, mentindo a todos os outros: 'Uma derrota total. Não obtivemos sequer uma cadeira. Na Galleria, as pessoas avançavam contra nós'. Foi obrigado a ligar para Rachele e tranquilizá-la quando informaram que a galhofa do cortejo fúnebre encenado pelos socialistas havia ficado de tocaia até mesmo embaixo da casa deles em Foro Bonaparte. 'Aqui está o cadáver de Mussolini!', gritavam as pessoas e batiam contra o portão. Atrás do seu caixão, outros dois caixões vazios acolhiam fantasiosamente os cadáveres de Marinetti e D'Annunzio. Rachele, por sua vez, confessou ao marido que havia se refugiado no sótão com as crianças. Parece que a pequena Edda foi acometida por uma crise de nervos". (p. 341. SCURATI, 2019) - g.n..
No Foro Buonaparte, hoje, ainda são vistos belos prédios.

Prédio localizado no Foro Buonaparte, Milão, capital da Lombardia, Itália.

Prédio localizado no Foro Buonaparte, Milão, capital da Lombardia, Itália.

Prédio localizado no Foro Buonaparte, Milão, capital da Lombardia, Itália.

Placa do Foro Buonaparte, Milão, capital da Lombardia, Itália.
No próximo post, seguimos em Milão, agora para visitar uma casa moderníssima para os padrões dos anos: a Villa Necchi Campiglio.
Fontes:
SCURATI, Antônio. M – O filho do século. Tradução de Marcello Lino. Rio de Janeiro: Intrínseca, 1ª edição. Edição digital: 2019.
Wikipedia;
Guide: Fabuleuse Italie du Nord: Rome, Florence, Venise, pesquisa e redação de Louise Gaboury, direção de Claude Morneau, versão eletrônica, 2019, Guides de Voyage Ulysse, Québec, Canada.




Comentários