top of page

Milão - Parte I - Região da Lombardia - Norte da Itália - 2023

  • Foto do escritor: Roberto Caldas
    Roberto Caldas
  • 31 de dez. de 2025
  • 17 min de leitura

Fachada monumental da Stazione di Milano Centrale, inaugurada em 1º de julho de 1931, projetada por Ulisse Stacchini. Piazza Duca d'Aosta, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.



Do Lago di Como fomos para Milão.


Milão


Milão foi fundada por volta de 400 a.C. pelos gauleses ínsubres, uma tribo celta que se estabeleceu às margens do rio Pó.


Os romanos a ocuparam, em 222 a.C. ou 196 a.C., e, em razão da sua posição geográfica, estratégica para as rotas comerciais e para impedir invasões bárbaras, deram-lhe o nome de Mediolanum.


A partir de Milão, os romanos exerciam o controle sobre a Gália Cisalpina, tendo o imperador Augusto, no final do século I a.C. ou início do século I d.C., lhe atribuído o papel de capital da região Transpadana.


A capital do Império, por volta de 286 ou 292, mudou-se, por determinação do imperador Diocleciano, de Roma para Milão para fortalecer a área norte, ameaçada por invasões do Danúbio e das tribos alpinas; neste período, o imperador Constantino, o Grande, promulgou o Édito de Milão, em 313, que tornou legal o Cristianismo; Santo Ambrósio, um dos Padres da Igreja, padroeiro da cidade e mentor e instrumento de conversão de Santo Agostinho, foi nomeado, em 374, bispo de Milão.


No entanto, a pressão bárbara, com risco de ataques, forçou, em 402, o imperador Honório a transferir a capital de Milão para Ravena.


Após a derrocada do Império Romano do Ocidente, os ostrogodos, um povo germânico, em 493, apoiados por Teodorico, imperador do Império Romano do Oriente, dominaram a Itália sob a supremacia (na verdade, teórica) de Constantinopla.


Em 568 ou 569, os lombardos invadiram e dominaram a região, e Milão foi relegada a um papel secundário, eclipsada por Pavia, a nova capital da Lombardia.


Os lombardos se mantiveram no domínio do Reino da Lombardia até a chegada dos francos, em 774, liderados por Carlos Magno, que o conquistou; assim, a região, Milão inclusive, passou a fazer parte do Império Carolíngio e, depois, de seu sucessor, o Sacro Império Romano-Germânico.


A partir do século XI, um importante movimento autonomista (conhecido como as Comunas) desenvolveu-se em muitas cidades do norte da Itália, em oposição às tentativas dos imperadores germânicos do Sacro Império Romano-Germânico de controlá-las; Milão, por ter crescido muito economicamente em relação às outras, desempenhou um papel de liderança nesse movimento, governando-se com base em regras democráticas e construindo o Palazzo della Ragione como sede de suas decisões políticas.


Assim, Milão tornou-se uma comuna livre, passando a integrar a Liga Lombarda, instituída em 1167 e formada também por Bréscia, Mântua, Bolonha, Verona, dentre outras cidades, que se opuseram ao domínio do Sacro Império Romano-Germânico, particularmente durante os governos do imperador Frederico I, o Barba-ruiva (1155-1190) e do seu neto, Frederico II, o Stupor Mundi (1220-1245).


Mas antes mesmo da criação da Liga Lombarda, essa posição independente da cidade custou-lhe a destruição pelos alemães e a perca de relíquias religiosas: em 1164, os supostos restos mortais dos Três Reis Magos, que se encontravam na Basílica de Sant'Eustorgio, em Milão, foram transferidos para Colônia (na atual Alemanha), após aquela cidade italiana ter sido literalmente destruída pelo imperador Friedrich I (Frederico I, o Barba-ruiva), da dinastia de Hohenstaufen.


Assim relatou o episódio o biógrafo de Frederico, o Barba-ruiva, Ivan Gobry:


"(...) Em maio de 1161, Frederico dirigiu um ultimato: se a cidade se rendesse, ela deveria abater suas muralhas e aceitar o governo imperial, mas a população seria poupada. Ela recusou categoricamente. Ela sabia, no entanto, que sua perda estava programada. Ela resistiu, ainda, com a determinação do desespero, até 1º de março de 1162. Então ela capitulou.


"César [Frederico] tinha ruminado sua vingança, e a ferocidade de seus projetos foi crescendo a cada dia com a resistência adversa. Porque esta resistência, ele o sabia. não era somente a de uma cidade por sua independência, era também a da Itália que estremecia o jugo germânico; ela era, além de sua cruel realidade, o símbolo duma nação inteira. E era a da nação indomável que o tirano tinha resolvido humilhar.


"(...) Ele fez edificar um trono diante de Lodi, a cidade rival perto da qual ele tinha estabelecido seu quartel-general. Foi lá que ele esperou em triunfo a lamentável procissão dos vencidos. (...) era um carro fúnebre que avançava assim em direção a Lodi. Os cônsules e os cavaleiros portavam uma espada nua suspensa do pescoço, os senadores e burgueses tinham vestido o hábito dos penitentes, e levavam uma cruz na mão. Ao chegarem diante do monarca, eles se prostraram todos e pediram graça. (...) Vários príncipes, alguns bispos, comovidos por essa cena, tentaram inclinar o coração de Frederico em direção à misericórdia. Mas ele, para saborear sua vingança, dispensou os suplicantes, pedindo-lhes que aguardassem sua sentença.


"(...) Enfim, em 15 de março, ele chegou, cercado de seus dignitários, mas também, por um refinamento de crueldade mental, acompanhado de destacamentos fornecidos pelas cidades de Cremona, de Lodi, de Pavia e de Novare. Os vencidos de ontem deveriam infligir seu castigo ao vencido de hoje. César falou: Milão, reprovada por causa de seus crimes contra a Majestade imperial, cessaria de existir; ela seria demolida pedra por pedra, e seriam os lombardos que abateriam suas muralhas e suas casas (...). (págs. 137 e 138)


"Durante seis semanas, os escravos do vencedor trabalharam duro sobre as construções da maldita cidade, abatendo elegantes palácios municipais, ricas residências burguesas, humildes prédios populares, plácidos monastérios (...) Mesmo os edifícios sagrados tombaram, acrescentando o sacrilégio à crueldade (...).


"A mais combativa das cidades lombardas foi riscada do mapa; todas as outras agora tinham que tremer (...)". (tradução livre do francês - págs 363 a 371) - "Frédéric Barberousse - Une Épopée du Moyen Âge", de Ivan Gobry; Éditions Tallandier, Paris, 1997; livro eletrônico Editions Frédérique PATAT, Paris, 2015.


Ainda no curso do século XIII, enquanto as lutas entre guelfos (partidários da Liga e do papa) e gibelinos (aliados do imperador) se intensificavam, o período de liberdade comunal de Milão terminou com a tomada do poder pela família Visconti, que manteve o domínio da cidade de 1277 a 1447, conferindo-lhe ampla influência política e cultural e dando início à construção da Catedral e do Castelo; em 1395, Gian Galeazzo Visconti tornou-se duque de Milão, criando-se, assim, o Ducado de Milão.


Após um breve volta ao governo republicano por três anos, em 1450 o capitão mercenário Francesco Sforza assumiu o poder, tendo recebido da República o comando do exército; em termos culturais, este foi o período que hoje chamamos de Renascimento, e o período Sforza coincidiu com um dos períodos de maior florescimento artístico de Milão: arquitetos como Donato Bramante e Leonardo da Vinci, entre outros, chegaram à cidade, a construção da Catedral e do Castelo foi retomada com grande ímpeto, e foram erguidas a Chiesa di Santa Maria delle Grazie e o hospital que hoje abriga a Universidade Estatal.


Nos últimos anos dos Sforza (início do século XVI), o norte da Itália tornou-se um campo de batalha entre as monarquias francesa e espanhola, tendo a última prevalecido e dominado a cidade de Milão por quase dois séculos (1535-1713); este período não foi de desenvolvimento, tendo sido marcado pelo flagelo da Peste Negra de 1630; mas, culturalmente, não foi totalmente improdutivo, graças à atuação dos cardeais da família Borromeo: Carlo (posteriormente canonizado) e Federico; a Escola Ambrosiana (l'Ambrosiana) foi fundada em 1609, e os seminários e o palácio jesuíta, que hoje abrigam a Academia de Belas Artes de Brera (l'Accademia di Brera), foram erguidos.


Porém, em 1700, Carlos II, rei da Espanha, da dinastia dos Habsburgos, faleceu sem descendência, o que desencadeou a Guerra da Sucessão Espanhola, que culminou com a vitória de Filipe, neto de Luís XIV, o Rei-sol, da dinastia Bourbon; para que não houvesse uma dominação Bourbon muito grande sobre o continente europeu (França, Espanha, grande parte da Itália), no Tratado de Rastatt de 1714, ficou acordado que a Áustria receberia os territórios espanhóis na Itália de Nápoles, Milão (complementados pelo Tratado de Baden), Sardenha e os Países Baixos do Sul; assim, Milão passou a ficar sob o controle da dinastia austríaca (e imperial) dos Habsburgos; o período de Maria Teresa, imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico e arquiduquesa da Áustria, em particular — a segunda metade do século XVIII — foi caracterizado por uma forte recuperação, com uma orientação claramente secular (Despotismo Esclarecido), em praticamente todos os setores: da economia ao funcionamento do aparelho estatal, das artes à cultura, do sistema escolar ao desenvolvimento científico; a Academia de Brera (1776) foi fundada (no antigo Palácio dos Jesuítas), e La Scala (1778), o Palazzo Reale (1745), a Villa Reale (1796) e muitos palácios privados foram construídos no estilo neoclássico que continuaria a ser seguido nos anos seguintes.




Mapa de Milão (Milano, la Citta Principale et Fortezza Reale del Ducato medsino in Italia) por volta de 1730, de autoria do cartógrafo alemão Matthaus Seutter, durante o domínio austríaco (1714-1796). https://www.raremaps.com/gallery/detail/30747/milano-la-citta-principale-et-fortezza-reale-del-ducato-med-seutter with UploadWizard.


Durante as guerras que se seguiram à Revolução Francesa (1789), Milão caiu sob o domínio francês, em maio de 1796, tornando-se a capital primeiro da República Cisalpina e depois do chamado Reino da Itália — governado por parentes de Napoleão — que passou a abranger quase toda a Itália do Norte; foi um curto período de intenso fervor ideológico e artístico, que dotou a cidade, além de seus primeiros planos urbanísticos, de grandes instalações públicas como a Arena Civica (1807) e as novas portas da cidade (Ticinese, Magenta e Nuova).




"Piazza Duomo, Milano", "Vista da Praça da Catedral de Milão a partir do 'Coperto dei Figini'", pintura de Angelo Inganni de 1842. https://web.archive.org/web/20131030045910/http://www.atlantedellarteitaliana.it/artwork-15205.html


Os austríacos retornaram à cidade após a queda de Napoleão (1815), mas já não eram reformistas nem iluministas; Metternich, ministro das Relações Exteriores do novo Império Austríaco, afirmava que a Itália era "uma expressão geográfica", em flagrante oposição ao sentimento que se tinha durante a era napoleônica, na qual Milão respirava um ar de unidade nacional; em 1848, a cidade se rebelou contra os austro-húngaros, e, em 1859, ao fim da Segunda Guerra de Independência Italiana, passou a fazer parte dos domínios da Casa de Saboia (Reino da Sardenha-Piemonte), que em 1861 se tornaram Reino da Itália, completamente soberano.


Para iniciar nossa visita à linda cidade de Milão, nós nos alojamos no Spice Hotel Milano, instalado num prédio histórico, possivelmente do final do século XIX ou início do século XX, na Via Vitruvio, 48, bem próximo à Estação Central de Milão.




Prédio do Spice Hotel Milano, possivelmente do final do século XIX ou início do século XX. Via Vitruvio, 48, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.



A Estação Central de Milão (Milano Centrale) é a principal estação ferroviária de Milão, a segunda maior da Itália em termos de tráfego de passageiros e uma das maiores da Europa.


Inaugurada em 1931 e projetada por Ulisse Stacchini, a estação recebe mais de 320.000 passageiros diariamente e é um importante entroncamento ferroviário. Além de sua função de transporte, a Estação Central de Milão é um monumento histórico.




Fachada monumental da Stazione di Milano Centrale, inaugurada em 1º de julho de 1931, que reflete o ecletismo do final da era humbertiana; o edifício mescla influências do estilo Liberty, como evidenciado pelos arcos em forma de alça de cesta do hall principal, com influências do Art Déco, visíveis nas formas geométricas que decoram o topo do edifício de passageiros, combinadas com a monumentalidade da arquitetura fascista, caracterizada pelos pégasos no alto das colunas externas. Piazza Duca d'Aosta, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Átrio da estação; em destaque a escada rolante que dá acesso à Galleria di Testa, aberta nas laterais, onde hoje funciona um shopping, e às plataformas de embarque. Stazione di Milano Centrale, Piazza Duca d'Aosta, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Parede oeste do átrio da estação, onde é possível ver uma das bilheterias originais (Biglietteria Ouest). Stazione di Milano Centrale, Piazza Duca d'Aosta, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.


Seguimos da estação para o centro, quando nos deparamos com a Piazza Cavour, na frente do Arco da Porta Nuova, uma das entradas da Velha Milão.




Monumento a Cavour, inaugurado em 6 de junho de 1865, obra do escultor italiano Odoardo Tabacchi; já a figura feminina (que representa o ideal da Itália, ou a Vitória, ou a Glória) nos degraus do monumento foi esculpida por Francesco Barzaghi Piazza Cavour, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Estátua de Camillo Benso, o conde de Cavour; como primeiro-ministro do Reino da Sardenha, foi um dos grandes idealizadores da Unificação Italiana. Piazza Cavour, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.


Em seguida, ingressamos na Via Alessandro Manzoni, no sentido do famoso Quadrilátero da Moda, já na Velha Milão.


A Chiesa di San Francesco di Paola, localizada no coração de Milão, é um templo católico com história e arquitetura notáveis. Projetada pelo arquiteto Marco Bianchi Romano, sua construção começou em 1728, tendo sido consagrada em 1735.


Destaca-se por sua fachada neobarroca, concluída em 1891, projeto de Emilio Alemagna, e por sua planta singular em forma de contrabaixo.


Abriga valiosas obras de arte, incluindo afrescos de Carlo Maria Giudici e esculturas de Giuseppe Perego, além de um altar-mor de mármore policromado. Foi aqui que ocorreu o funeral de Giuseppe Verdi em 1901, tornando-a um local emblemático da cidade.




Fachada da Chiesa di San Francesco di Paola, em estilo neobarroco, concluída em 1891. Via Alessandro Manzoni, 30, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Nave única do século XVIII, em estilo rococó, da Chiesa di San Francesco di Paola. Via Alessandro Manzoni, 30, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




O altar-mor ricamente decorado, feito de mármore misto, pedras semipreciosas e bronzes dourados, foi erguido pela oficina de Giuseppe Buzzi, em Viggiù, entre 1749 e 1752, incluindo o antepêndio, o tabernáculo coroado por uma estatueta de mármore de Carrara do Salvador e os querubins de mármore de Carrara na cornija; o altar foi equipado em outubro de 1752 com castiçais feitos pelos ourives romanos Benedetto Arnaboldi e Giuseppe Moltano. O retábulo emoldurado representando São Francisco de Paula é de 1647 e é obra de Giovanni Masi. Chiesa di San Francesco di Paola, Via Alessandro Manzoni, 30, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Contrafachada da igreja, tendo em destaque o órgão desativado, instalado dentro da caixa do antigo instrumento Serassi. Chiesa di San Francesco di Paola, Via Alessandro Manzoni, 30, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.


Na sequência nos deparamos com o Armani Hotel Milano, criado por iniciativa do famosíssimo estilista italiano Giorgio Armani. O hotel foi inaugurado em 2011 e está instalado em um edifício de estilo racionalista projetado por Enrico Agostino Griffini em 1937, reformado com a colaboração da empresa Emaar Properties PJSC, dos Emirados Árabes Unidos.


O prédio incialmente foi erguido para servir como uma das sedes da companhia de seguros Generali, por isso foi chamado originalmente de Palazzo delle Assicurazioni Generali di Trieste e Venezia. Embora projetado em 1937, foi concluído somente em 1948. Na fachada da Via Alessandro Manzoni, ainda hoje se destacam quatro esculturas de Marcello Mascherini, uma delas representando o Leão de São Marcos, símbolo da Assicurazioni Generali.


Griffini foi um dos principais expoentes do Racionalismo Italiano, um movimento arquitetônico que remetia ao classicismo em seu uso calculado de proporções matemáticas, equilíbrio e funcionalismo. Dentro desse movimento, fez parte do grupo Quadrante, bem como escreveu o manual técnico " La costruzione razionale della casa", com a primeira edição de 1931, um clássico do movimento.




Armani Hotel Milano, instalado em 2011 num edifício racionalista (estilo funcional que veio contrapor a todos os ornamentos, curvas e flores da Art Nouveau depois da Primeira Guerra Mundial), originalmente desenhado por Enrico Griffini em 1937, mas concluído apenas em 1948; destaque para a escultura do Leão de São Marcos, obra de Marcello Mascherini, símbolo da Assicurazioni Generali, primeira proprietária do edifício. Via Alessandro Manzoni, 31, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.


Nas proximidades, ainda na Via Alessandro Manzoni, encontra-se o Grand Hotel et de Milan, que abriu suas portas para a alta sociedade milanesa em 23 de maio de 1863, escrevendo um capítulo na história e cultura da cidade. A curta distância do famosíssimo Teatro alla Scala fez dele, imediatamente, um refúgio acolhedor para os maiores artistas de todos os tempos: Verdi, Caruso, Callas e Nureyev foram hóspedes assíduos. Foi, também, o primeiro hotel da cidade a oferecer serviços postais e telegráficos, tornando-se rapidamente num ponto de encontro para diplomatas e empresários.


O grande compositor de ópera Giuseppe Verdi fez do hotel sua casa por 27 anos. Após a apresentação da ópera "Otello" no La Scala, na sua estreia em 5 de fevereiro de 1887, uma multidão em festa carregou o maestro até o saguão do hotel. Os "vivas" e aplausos incessantes da plateia milanesa obrigaram o compositor a aparecer na sacada do seu quarto, acompanhado pelo tenor italiano Francesco Tamagno, que ofereceu um bis espontâneo, levando o público ao delírio. O hotel, que é conhecido como "a Casa de Verdi", até hoje mantem a suíte onde o grande maestro viveu e compôs.


Além de Verdi, são muitas outras estórias ocorridas no hotel que envolvem artistas de grande renome internacional: a lendária soprano greco-americana Maria Callas, deslumbrante em suas joias, descendo majestosamente os degraus antes de uma apresentação no Teatro alla Scala; o grande tenor italiano Enrico Caruso, no quarto 306, gravando sua primeira ópera, tornando-se a primeira superestrela da música moderna; o prestigiado bailarino e coreógrafo soviético (hoje, Rússia) Rudolf Nureyev hospedou-se no hotel por semanas, frequentemente com sua maravilhosa parceira profissional, a bailarina inglesa Margot Fonteyn; o ator britânico (galês) shakespeariano e hollywoodiano Richard Burton, que foi casado com a atriz anglo-americana Elizabeth Taylor, adorava frequentar o bar do hotel durante sua estadia na cidade, e a artista polonesa, que amalgamava a arte maneirista renascentista e o neocubismo, traduzindo-se num movimento coincidente com o Art Déco, Tamara de Lempicka considerava o Milan seu romântico lar milanês.


Mais o hotel tem uma ligação histórica com o Brasil: em 30 de abril de 1888, os nossos imperadores Dom Pedro II e Teresa Cristina encontravam-se ali hospedados, quando o monarca brasileiro teria manifestado apoio ao projeto de lei que punha fim à escravidão no Brasil, tendo a lei sido aprovada pelo Legislativo e sancionada pela princesa regente Isabel, em 13 de maio de 1888, com o nome de "Lei Áurea": uma estátua no saguão comemora essa decisão lendária.


Em 1931, o Grand Hotel foi completamente renovado: banheiros modernos, água corrente e telefones foram instalados em todos os quartos. Em 1993, durante algumas reformas, uma descoberta maravilhosa foi feita: um trecho do perímetro defensivo de Milão foi descoberto bem abaixo do hotel. As fascinantes ruínas da muralha construída pelo imperador Maximiano, em 250 d.C., podem ser admiradas hoje no porão do Ristorante Don Carlos.




Grand Hotel et de Milan. Via Alessandro Manzoni, 29, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.


O Monumento a Leonardo da Vinci, inaugurado em 4 de setembro em 1872 na Piazza della Scala, obra do escultor Pietro Magni, celebra o gênio renascentista e seus discípulos Giovanni Antonio Boltraffio, Marco d'Oggiono, Cesare da Sesto e Gian Giacomo Caprotti, também conhecido como Andrea Salaino (André Demônio).


A homenagem a da Vinci se deve ao fato de ele ter passado muitos anos na corte milanesa durante o governo de Ludovico Sforza, conhecido como il Moro.




Monumento a Leonardo da Vinci, de 1872; no alto, a escultura do mestre Leonardo, em mármore de Carrara, e, em torno da base, as dos 4 discípulos, dos quais vemos, à esquerda, Cesare da Sesto, ao centro, Marco d'Oggiono e, à direita, Giovanni Antonio Boltraffio. Piazza della Scala, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Monumento a Leonardo da Vinci, de 1872; no alto, a escultura do mestre Leonardo, em mármore de Carrara, e, em torno da base, as dos 4 discípulos, dos quais vemos, à esquerda, Marco d'Oggiono, ao centro, Giovanni Antonio Boltraffio e, à direita, Gian Giacomo Caprotti, também conhecido como Andrea Salaino (André Demônio). Piazza della Scala, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.


No século XVIII, Milão possuía, ao lado do Duomo, uma casa de óperas denominada Teatro Regio Ducale ou Regio Ducal Teatro, mas este foi destruído na noite de 25 de fevereiro de 1776 por um incêndio em circunstâncias misteriosas.


Maria Teresa da Áustria, imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico e arquiduquesa da Áustria, imediatamente incumbiu o arquiteto Giuseppe Piermarini de construir outra casa de ópera, desta vez no local da decadente Chiesa di Santa Maria della Scala, do século XIV, igreja nomeada em homenagem a Beatrice Regina della Scala (família nobre de Verona), esposa de Bernabò Visconti, senhor de Milão.


Em apenas dois anos, de 1776 a 1778, a obra, em estilo neoclássico, foi concluída; assim nasceu o Teatro alla Scala, destinado a se tornar um dos principais marcos culturais da Itália e da Europa.


O Teatro, na noite de 15 para 16 de agosto de 1943, foi severamente danificado por bombardeios da Força Aérea Real Britânica, mas, em 11 de maio de 1946, após uma rápida reconstrução, La Scala reabriu em seu esplendor original com um concerto memorável regido por Arturo Toscanini, com a orquestra alinhada em frente à cortina e o público sentado em cadeiras compartilhadas.




Fachada principal do Teatro alla Scala. em estilo neoclássico, os elementos arquitetônicos que caracterizam a fachada incluem o tímpano, as pilastras e as semicolunas; no térreo e no mezanino, sete arcos se abrem numa parede baixa de cantaria, rebocada em cor clara, semelhante às superfícies dos andares superiores; cada arco abriga uma porta, encimada por uma pequena janela em arco do mezanino; uma fileira de blocos salientes percorre os pilares dos arcos; acima da galeria, encontra-se um parapeito com balaustrada, cujo desenho também serve de base para as semicolunas e pilastras coríntias que marcam o ritmo dos diversos volumes do primeiro andar; no terraço, entre os quatro pares de semicolunas, encontram-se três portas com tímpanos; na parede do volume intermediário e nos terraços laterais, há mais quatro aberturas, também decoradas com tímpanos triangulares, duas à direita e duas à esquerda; a fachada é coroada por um tímpano decorado, também desenhado por Piermarini, com um baixo-relevo em estuque, de Giuseppe Franchi, cujo tema é a alegoria "O carro do Sol perseguido pela Noite" (também chamada de "O carro de Apolo" ou "Faetonte"); em ambos os lados, uma balaustrada interrompida, em correspondência com as pilastras subjacentes, por parapeitos cegos decorados com vasos flamejantes. Piazza della Scala, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Busto de Arturo Toscanini, musicista e diretor de orquestra italiano, que regeu no dia da reabertura do La Scala, em 11 de maio de 1946, após sua reconstrução, em seguida ao término da 2ª Guerra Mundial; busto criado pelo escultor italiano Adolfo Wildt, em 1924 ou 1929, e instalado no pedestal, no Foyer, em 7 de dezembro de 2004. Teatro alla Scala, Piazza della Scala, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Foyer Toscanini do Teatro alla Scala; destaque para as belas colunas caneladas e pilastras encimadas por capitéis coríntios dourados. Piazza della Scala, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Maquete com corte longitudinal do Teatro alla Scala, na qual se veem da esquerda para a direita, de modo geral, as divisões clássicas do edifício: o saguão ou foyer; a sala de espetáculos, em forma de ferradura, onde se encontram a plateia, os camarotes, as galerias e o grande lustre; o fosso da orquestra; o palco cênico e, acima dele, a caixa cênica (espaço utilizado para levantar e baixar cenários e a instalação de equipamentos de iluminação, essencial para as complexas mudanças de cena da ópera); e as áreas de bastidores (camarins, escritórios, espaços para construção de cenários, etc.). Piazza della Scala, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Lado direito dos camarotes e das galerias da Sala de Espetáculos. Teatro alla Scala, Piazza della Scala, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Sala de espetáculos, vendo, no centro, o palco cênico e, abaixo, o fosso da orquestra. Teatro alla Scala, Piazza della Scala, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Cortinado acima do palco cênico com o símbolo do teatro, que repete basicamente o da Comuna de Milão. Teatro alla Scala, Piazza della Scala, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Plateia da Sala de Espetáculos, tendo, à sua frente, o fosso da orquestra. Teatro alla Scala, Piazza della Scala, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




O grande lustre da Sala de espetáculos, com 383 lâmpadas, fabricado após o bombardeio de 15 de agosto de 1943, mas cópia fiel do original. Teatro alla Scala, Piazza della Scala, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.




Palco Reale ou Palco della Corona (Camarote Real); fica em frente ao palco cênico; um teto ligeiramente arqueado, rico em entalhes e decorações, sustentado por duas pilastras encimadas por duas cariátides, que por sua vez sustentam os mísulas do próprio teto, sobre as quais se destaca o brasão de armas ou emblema da República Italiana. Teatro alla Scala, Piazza della Scala, Milão, capital da província homônima e da Região da Lombardia, Itália.


Continuamos, no próximo post, visitando La Scala, agora o Museo Teatrale alla Scala.



Fontes:


Wikipedia;


Guide: Fabuleuse Italie du Nord: Rome, Florence, Venise, pesquisa e redação de Louise Gaboury, direção de Claude Morneau, versão eletrônica, 2019, Guides de Voyage Ulysse, Québec, Canada.








Comentários


Obrigado por se subscrever!

SUBSCREVER

bottom of page